Em Portugal, cerca de 3,5% da população é afectada pela incapacidade de ver, de acordo com os Censos de 2021. Apesar de já existir alguma acessibilidade nos transportes públicos e serviços, ainda há contextos em que estas pessoas se vêem excluídas. Um exemplo disso são as tecnologias de realidade virtual, nas quais a visão é o principal sentido que permite ao utilizador aceder ao mundo digital. Para contrariar este paradigma, uma equipa de investigadores portugueses desenvolveu uma experiência de boxe em realidade virtual adaptada para pessoas cegas. No projecto, participou o ex-campeão nacional de boxe Jorge Pina, que perdeu a visão em 2004 e actualmente é treinador na academia que fundou.“A realidade virtual está a ganhar espaço em múltiplos contextos, mas continua a ser muito centrada na visão”, afirma João Guerreiro, professor do Departamento de Informática da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). O facto de estar muito dependente da visão deve-se à natureza dos headsets, óculos que projectam imagens do ambiente digital, em que o utilizador se move, dando indicações visuais sobre o que ele deve fazer e onde se encontra. “Este papel central da visão acaba por excluir as pessoas cegas de participarem em muitas destas experiências”, realça o investigador. (...)
O protótipo do jogo, concluído este ano, inclui três modos: treino com saco; treino com um treinador; combate com um adversário. O protótipo foi ainda testado por outras 15 pessoas com deficiência visual, além do pugilista, e a reacção foi positiva. Os resultados da investigação estão documentados num artigo científico que foi apresentado na conferência Factores Humanos em Sistemas Computacionais, promovida pela Associação de Computação e Maquinaria (ACM, na sigla em inglês), entre Abril e Maio de 2025, em Yokohama, no Japão. “Embora trabalhos anteriores tenham investigado aspectos específicos da acessibilidade da realidade virtual, há pouco conhecimento sobre como conceber experiências de realidade virtual completas, ricas em funcionalidades e acessíveis a pessoas cegas”, lê-se no artigo, publicado na biblioteca digital da ACM.
Fonte: Artigo completo em Público com acesso exclusivo
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