sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Como quebrar o ciclo da ansiedade perante os testes? Com mais testes e melhor regulação das emoções

Um estudo recente de um grupo de investigadores ingleses e australianos, David W. Putwain, Laura J. Nicholson e Reinhard Pekrun, examinou as relações entre os níveis de ansiedade face aos testes, as estratégias de regulação emocional e de gestão dessa ansiedade, e o desempenho escolar. Neste estudo, publicado no Journal of Educational Psychology, os investigadores mediram estratégias de regulação emocional, ansiedade em relação aos testes e desempenho escolar em 533 alunos nos últimos anos do ensino secundário, durante dois anos e meio.

Numa primeira fase, os investigadores começaram por recolher as notas que os alunos tinham obtido a Inglês e Matemática; seis meses depois, pediram aos alunos que reportassem os seus níveis de ansiedade em relação aos testes e recolheram informação sociodemográfica; passados seis meses, tornaram a registar as notas; seis meses mais tarde, pediram aos alunos que reportassem de novo os seus níveis de ansiedade face aos testes e as estratégias de regulação emocional que utilizavam para lidar com a ansiedade; e, depois de mais seis meses, tornaram a registar as notas obtidas pelos alunos.

Tabela 1. Diferentes estratégias de regulação emocional


Através de modelos estatísticos, os investigadores verificaram que alunos com avaliação mais fraca reportavam maior ansiedade, o que piorava subsequentemente o seu desempenho, revelando um ciclo associativo entre maior ansiedade e pior desempenho. Os alunos que reportaram mais ansiedade perante os testes também reportaram maior uso de duas estratégias de regulação emocional não-adaptativas: catastrofização e ruminação. O uso destas estratégias aumentou a ansiedade perante os testes seguintes. Pelo contrário, os alunos que recorriam à estratégia adaptativa de colocar em perspetiva tendiam a reportar menos ansiedade.

Menos ansiedade relativamente aos testes apareceu associada ao uso posterior de outras estratégias adaptativas, como a reavaliação positiva e o redireccionamento para o planeamento, enquanto maior ansiedade apareceu associada ao subsequente uso de outras estratégias como aceitação, autoculpabilização e culpabilização dos outros.

Estes resultados mostram que, apesar de alguma investigação mais antiga sugerir que alguma ansiedade pode ter efeitos positivos no desempenho, alunos que ultrapassam um certo nível de ansiedade em relação aos testes escolares tendem a ter um desempenho pior. Esta associação tem sido bastante descrita na investigação em sala de aula. Por seu turno, o pior desempenho dos alunos mais ansiosos aumenta ainda mais a sua ansiedade.

O que podem os educadores fazer para quebrar este ciclo? Este estudo dá-nos algumas pistas. Os alunos mais ansiosos tendem a lidar com a sua ansiedade e o seu mau desempenho de duas maneiras que perpetuam duplamente a sua ansiedade e os seus pensamentos negativos: pensam repetidamente nos seus sentimentos negativos e na situação que gera ansiedade e preveem consequências catastróficas da situação. Pelo contrário, os alunos menos ansiosos tendem a lidar com a ansiedade e com o desempenho mais fraco de uma forma que reduz o seu impacto emocional, porque relativizam a importância da situação.

Os educadores podem então tentar incutir nos alunos o uso de estratégias de regulação emocional que se foquem na relativização da importância dos testes e do desempenho num teste específico. Ensinar os alunos a reconhecer que estratégias tendem a usar e explicar quais funcionam melhor é uma possibilidade. Mais eficaz ainda poderá ser enfatizar que os testes não são o único fator que determina a nota e habituar os alunos ao ambiente de teste, utilizando testes que não contam para a nota final (ou que contam muito pouco), para que os alunos aprendam a relativizar a sua importância e a do seu desempenho. Se os alunos treinarem o uso de estratégias adaptativas em ambiente de teste poderão reduzir a sua ansiedade em futuros testes, mesmo quando estes testes têm mais impacto na sua avaliação final.

Um estudo de 2014 tinha já apontado para o efeito benéfico de aumentar o número de testes para reduzir a ansiedade a eles associada. Num questionário a 1408 alunos do segundo ciclo do ensino básico, os investigadores tinham verificado que 72% dos alunos referiram que uma intervenção com a prática de recuperação em aula os tinha feito sentir menos ansiosos quando tinham de fazer testes. Assim, utilizar a prática de recuperação nos testes formativos durante as aulas não só fomenta a aprendizagem, como também pode reduzir a ansiedade durante os exames.

Se à prática de recuperação se juntar o treino de estratégias adaptativas, como colocar o teste em perspetiva, relativizar a sua importância e redirecionar para o planeamento, pensando em passos concretos para lidar com os testes no futuro, recorrer aos testes em aula melhora o desempenho escolar (que, como vimos, reduz a ansiedade) e os alunos aprendem a gerir a sua ansiedade com efeitos benéficos no seu desempenho escolar.

Ludmila Nunes

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

“Sem literacia digital sólida, o risco não é apenas técnico, mas social”

À medida que as crianças crescem rodeadas por ecrãs e aplicações, a linha entre diversão e risco digital torna-se cada vez mais ténue. Teresa Zagallo, Diretora de Cibersegurança da KPMG Portugal, acredita que o verdadeiro desafio não é ensinar a usar tecnologia, mas sim ensinar a viver com ela.

Em entrevista à Executive Digest, Teresa Zagallo analisa a importância da literacia digital, o papel das empresas tecnológicas, o crescimento da Inteligência Artificial e detalha como o Cyber Day da KPMG procura capacitar crianças, jovens e professores para navegar com segurança no mundo digital.

Estamos a educar crianças para usar tecnologia ou para viver com tecnologia? Qual é a diferença?

Durante muitos anos, o foco esteve sobretudo em ensinar as crianças a usar tecnologia, ferramentas, dispositivos e aplicações. Hoje, esse paradigma é insuficiente. Vivemos num contexto em que a tecnologia está integrada em quase todas as dimensões da nossa vida, pelo que o verdadeiro desafio é educá-las para viver com a tecnologia. A diferença entre estes paradigmas está na intenção, uma vez que usar tecnologia é algo meramente operacional, e viver com tecnologia implica desenvolver pensamento crítico, consciência dos riscos, responsabilidade digital, empatia e capacidade de decisão informada. É esta segunda abordagem que visa preparar crianças e jovens para um mundo digital complexo e em constante mudança.

A rapidez da evolução tecnológica está a criar uma geração mais informada ou apenas mais exposta?

A tecnologia tem o potencial de criar uma geração mais informada, mas sem literacia digital adequada, está sobretudo a criar uma geração mais exposta. O acesso à informação não equivale à sua compreensão, nem à capacidade de distinguir conteúdos fidedignos de desinformação. As crianças e jovens estão hoje mais vulneráveis a riscos como fraude, cyberbullying, exposição excessiva, manipulação de informação e dependência digital, precisamente porque a velocidade da inovação não tem sido acompanhada por uma educação proporcional em segurança e responsabilidade digital.

A literacia digital deveria ser tratada como disciplina autónoma nas escolas?

Idealmente, a literacia digital deveria ser encarada como uma competência transversal, integrada ao longo de todo o percurso escolar. Embora estes conteúdos já estejam hoje presentes no currículo de várias disciplinas e anos de escolaridade, acabam muitas vezes por ser abordados de forma pontual, sem estrutura, pouco aprofundada e sem uma visão verdadeiramente integrada.

Dada a complexidade e a relevância crescente do mundo digital, faz sentido que exista tempo e espaço dedicados a estes temas, garantindo consistência, continuidade e adequação às diferentes idades. Mais do que criar uma disciplina isolada, é essencial assegurar que a literacia digital – incluindo a cibersegurança, a ética digital, o pensamento crítico, a privacidade e a cidadania digital – seja trabalhada de forma estruturada, progressiva e transversal em todo o percurso educativo.

Até que ponto as empresas tecnológicas têm responsabilidade direta na educação digital das crianças?

As empresas tecnológicas têm uma responsabilidade clara e crescente. Não apenas no desenho de produtos mais seguros e transparentes, mas também no apoio ativo à educação digital das comunidades onde operam. Essa responsabilidade não substitui a da escola ou da família, mas deve ser complementar, através de iniciativas de sensibilização, conteúdos educativos acessíveis e colaboração com entidades públicas e privadas para promover ambientes digitais mais seguros.

A inteligência artificial nas mãos de jovens é mais uma oportunidade ou um risco mal compreendido?

A inteligência artificial é, acima de tudo, uma oportunidade, mas que pode tornar-se um risco quando é usada sem enquadramento, espírito crítico ou compreensão dos seus limites. Para os jovens, a IA pode potenciar a criatividade, a aprendizagem e a inclusão. No entanto, sem literacia adequada, existe o risco de dependência, perda de pensamento crítico, uso acrítico da informação e violação de privacidade. O foco deve estar em ensinar como usar IA de forma ética, responsável e consciente.

As profissões do futuro exigirão mais competências técnicas ou mais pensamento crítico e ética digital?

As profissões do futuro exigirão ambos, mas o pensamento crítico, a ética digital e a capacidade de adaptação serão diferenciadores essenciais. As competências técnicas evoluem rapidamente; a capacidade de questionar, interpretar, tomar decisões informadas e agir de forma ética é o que permitirá acompanhar essa evolução. Formar jovens apenas em tecnologia, sem valores e consciência digital, é insuficiente para responder aos desafios futuros.

Em que consiste o Cyber Day da KPMG?

A iniciativa KPMG Global Cyber Day é um programa anual concebido para apoiar as comunidades, educando os jovens sobre a importância da cibersegurança e dos riscos na internet. Inclui apresentações presenciais adaptadas a diferentes faixas etárias, abordando temas como o uso das redes sociais, proteção da identidade online, cyberbullying, jogos online e ciberameaças. O programa foi desenvolvido para crianças e jovens dos 6 aos 16 anos, bem como para professores e pais, reconhecendo o papel fundamental que todos desempenham na educação digital.

Que lacunas mais urgentes em literacia digital identificam hoje nas crianças e jovens portugueses?

Destacam-se lacunas ao nível da proteção da identidade digital, privacidade, reconhecimento de riscos online, pensamento crítico sobre conteúdos e comportamento responsável nas redes sociais. Existe também uma perceção limitada das consequências reais das ações no mundo digital, bem como uma normalização de práticas inseguras que exigem intervenção precoce e contínua.

Que metas concretas gostariam de atingir em termos de impacto real nas escolas?

As metas que definimos vão além de números ou quotas anuais. O foco está no impacto real e sustentável nas comunidades escolares. Esta iniciativa enquadra-se no compromisso global da KPMG 10by30, cujo objetivo é contribuir para a capacitação económica de 10 milhões de jovens desfavorecidos até 2030.

No âmbito do Cyber Day, o contributo passa por capacitar crianças e jovens do ponto de vista do risco digital, dotando-os de conhecimento e ferramentas que lhes permitam navegar no mundo digital de forma mais segura, informada e responsável. Mais do que definir metas quantitativas, o nosso compromisso é chegar progressivamente a mais escolas, crianças e jovens, como temos vindo a fazer ao longo dos últimos anos, assegurando que este conhecimento essencial é acessível a todos. Paralelamente, procuramos envolver professores e pais, de forma a prolongar estas conversas para além da sala de aula e reforçar a mudança de comportamentos no dia a dia.

O que mais a preocupa quando pensa no ambiente digital onde crescerão as próximas gerações?

A maior preocupação é que as próximas gerações cresçam num ambiente digital altamente sofisticado, mas sem as ferramentas e o apoio necessários para o compreender e questionar. Sem literacia digital sólida, o risco não é apenas técnico, mas social: perda de autonomia, normalização de comportamentos abusivos e dificuldade em distinguir o que é seguro, ético e verdadeiro. É por isso essencial agir hoje, de forma estruturada e colaborativa.

Fonte: Executive Digest por indicação de Livresco

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Associação pede acompanhamento na saúde e educação para pessoas com Síndrome de Asperger


A Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger (APSA) defendeu hoje um acompanhamento frequente e integrado na saúde e na educação, alertando que sem o apoio necessário as pessoas com a perturbação ficam dependentes para toda a vida.

“O Estado devia pensar que se investisse como deve ser nestas pessoas, elas nunca seriam um "peso", com subsídios e com problemas mentais e com problemas de desemprego e com problemas de depressões, quer para a pessoa em si, quer para as famílias”, disse à Lusa a presidente da APSA, Piedade Líbano Monteiro, a propósito do dia internacional da Síndrome de Asperger, que se assinala na quarta-feira.

Em Portugal existem mais de 40.000 pessoas com a Síndrome de Asperger, segundo a associação.

Piedade Líbano Monteiro referiu que as pessoas com Síndrome de Asperger têm grandes dificuldades em interagir com outras pessoas e acabam por se isolar, destacando que sem o acompanhamento necessário ficam dependentes porque não sabem gerir dinheiro, não sabem de que médicos precisam, criam vícios, entre outros problemas.

A presidente da APSA, que tem 398 associados, lembrou que os portadores da síndrome não reagem bem às mudanças, sendo que sem os apoios que precisam, muitos acabam por não querer sair de casa, não conseguem arranjar um emprego sozinhos ou se o fazem nunca é de forma duradoura e defendeu a necessidade de diagnósticos precoces, apoios para terapias mais frequentes e consistentes, referindo que terapias quinzenais ou mensais são insuficientes.

Piedade Líbano Monteiro disse que é necessário que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) tenha uma parte virada para as necessidades educativas especiais, com equipas capazes de trabalhar em todas as áreas, quando os pais levam os filhos ao centro de saúde, por exemplo.

Em relação à educação, a presidente da APSA alertou que a maioria dos professores não tem formação para ensinar alunos com autismo, sendo que a Síndrome de Asperger é uma perturbação do espetro do autismo.

“No curso de educação, devia haver não uns mesinhos a trabalhar o autismo, nem um ano a trabalhar e a estudar o autismo, é muito mais do que isso” disse Piedade Líbano Monteiro, indicando que não se refere apenas ao autismo, mas também a outros programas de necessidades especiais ou para pessoas com deficiência.

A responsável referiu também que os subsídios não cobrem “nem de longe nem de perto as necessidades que as famílias têm com um filho com esta problemática”, indicando que muitos também precisam de comprar medicamentos por terem doenças como perturbação bipolar, entre outras.

A presidente da APSA afirmou que os apoios e as respostas da Segurança Social estão “muito aquém” e sublinhou que os apoios devem estar disponíveis em todo o país, inclusive nos arquipélagos, "porque uma pessoa com deficiência não pode viver só em Lisboa para ter apoios”.

Segundo Piedade Líbano Monteiro, a incompreensão das especificidades por parte da Segurança Social também se verifica nos requisitos exigidos para a APSA ser uma IPSS, como uma sala precisar de ser maior para a quantidade de associados que a associação tem.

“Eu já expliquei por todos os meios à Segurança Social que eu nunca tenho os jovens todos nesta casa (associação)”, disse, indicando que os beneficiários têm acompanhamentos diferentes na APSA.

A APSA é uma associação sem fins lucrativos dedicada ao apoio e integração social das pessoas com Síndrome de Asperger criada em 2003 por pais com filhos portadores da Síndrome de Asperger.

Fonte: Sapo por indicação de Livresco

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Depressão infantil: os sinais que passam despercebidos por detrás da agitação

Problemas de concentração, irritabilidade ou cansaço persistente podem não ser apenas fases passageiras da infância. Comportamentos que o pediatra Billy Garvey aprofunda e analisa no livro “10 Coisas Que Vale a Pena Saber Sobre a Saúde Mental do Seu Filho”. Da obra, publicamos um excerto centrado na identificação da depressão infantil e nos sinais que tendem a ser confundidos com outras dificuldades do desenvolvimento.

Nem sempre a tristeza nas crianças se manifesta como tristeza. Pode manifestar-se como cansaço persistente, irritação, queda no rendimento escolar ou desinteresse súbito por atividades de que gostavam. É neste campo dos comportamentos ambíguos que o pediatra do desenvolvimento Billy Garvey concentra o seu trabalho clínico há mais de duas décadas.

No livro 10 Coisas Que Vale a Pena Saber Sobre a Saúde Mental do Seu Filho (edição Presença), o médico reúne episódios do consultório e evidência científica para explicar como se manifestam os principais problemas de saúde mental na infância e quando devem preocupar pais e professores. Organizada em dez capítulos, a obra percorre sinais frequentes, da ansiedade à depressão, procurando facilitar a identificação precoce e orientar a decisão de procurar apoio especializado.

Garvey exerce num grande hospital pediátrico internacional, onde acompanha crianças e adolescentes em risco e forma profissionais de saúde e educação. Paralelamente, investiga o desenvolvimento emocional e comportamental e novas formas de apoio às famílias fora do contexto médico.

Fundador do projeto Guiding Growing Minds e autor do podcast Pop Culture Parenting, centra a sua intervenção na literacia em saúde mental infantil e na prevenção. O livro traduz essa abordagem ao combinar conhecimento científico atualizado com exemplos reais e estratégias concretas do quotidiano familiar, sublinhando o papel do ambiente doméstico na recuperação e no desenvolvimento das crianças.

Depressão

Nas crianças, os sinais de depressão não costumam ser os mesmos do que nos adultos. Sentirem-se em baixo é muito menos frequente, e os miúdos raramente nos dizem que se sentem tristes. Em vez disso, costumam mostrar-nos isso deixando de fazer coisas que lhes interessavam e tendo dificuldade em se concentrar. As crianças ficam presas na sua cabeça e, muitas vezes, fazem más escolhas devido à névoa e à indecisão. No caso de alguns adolescentes, a tendência para fazerem más escolhas, aliada a um desejo por estabelecerem ligações sociais, leva-os a cair em grupos de pares antissociais. Os adolescentes podem perder a esperança e tornar-se irritáveis, o que resulta num conflito com os outros, sobretudo com os pais e com os professores.

A seguir à ansiedade, a depressão é a doença mental mais comum nas crianças e nos adolescentes, mas, muitas vezes, não nos apercebemos dela. Os miúdos ansiosos costumam mostrar-nos a sua ansiedade mediante um sentimento angustiante de que algo está errado, ao passo que os miúdos com depressão guardam amiúde as suas dificuldades para si, porque a doença os separa das outras pessoas. Tendo em conta que, das crianças que recebemos na clínica, estas são as que se encontram em maior situação de risco e que setenta por cento das pessoas com depressão clínica terão recaídas (tanto no caso dos adultos como no das crianças), é importante sabermos como identificar e reagir à depressão nas crianças que estão ao nosso cuidado.

Se a família da Alice não tivesse achado que ela tinha PHDA, não sei se eu teria chegado a conhecê-la. A Alice só tinha catorze anos quando entrou no meu consultório pela primeira vez, mas a maior parte das pessoas teria pensado que ela era muito mais velha. As roupas que usava, o modo como falava e o quão madura e esperta era levavam frequentemente as pessoas a pensar que ela já estaria no fim da adolescência. Percebi logo naquela primeira consulta que as pessoas esperavam demasiado dela, tal como acontece com muitos dos miúdos inteligentes que recebo na clínica. Além disso, também percebi que lhe tinha sido exigido que crescesse demasiado depressa.

Ela entrou no meu consultório com um homem mais velho chamado Nick, que assumi que seria o pai. O Nick disse-me de imediato que era tio da Alice, que seria ele que a traria às consultas e que eu deveria falar com ele se precisasse de alguma coisa porque a Alice vivia com os pais dele (os avós dela), que não conduziam nem falavam ao telefone. Na verdade, raramente saíam de casa. A Alice fora deixada ao cuidado deles nove meses antes, por violência doméstica em casa dos pais, juntamente com o irmão, Alex, que tinha onze anos. O Nick era afetuoso e simpático, mas muito direto. “Estamos aqui por causa da medicação para a PHDA.”

“OK, fixe”, respondi. “Passo muitas receitas para essa medicação, mas, antes de falarmos sobre isso, tenho de abordar algumas questões. Em primeiro lugar, tenho de saber umas coisas sobre a Alice.”

O Nick respondeu, dizendo “É justo, doutor”, e concordámos que analisaríamos a história toda dela. O Nick disse-me que a Alice era muitíssimo inteligente e que, na primária, tinha saltado um ano porque achava tudo muito fácil. Apesar de ser muito mais nova do que todos os colegas, a Alice continuava a ser a melhor aluna da turma. O Nick irradiava orgulho enquanto dizia que ela era a única pessoa inteligente da família. Perguntei-lhe que outros pontos fortes tinha a Alice, e ele disse-me que ela era muito carinhosa e que tinha jeito para cuidar do irmão. Percebi que a história não acabava aqui, mas que o Nick e a Alice ainda não se sentiam à vontade para falar disso. Também fiquei a saber que ela era muito atlética, mas que nos últimos seis meses tinha deixado de fazer todos os desportos de que gostava e que também tinha deixado de estar com os amigos.
A seguir, focámo-nos nas dificuldades que a Alice tinha. “Ela não consegue estar sossegada e está sempre a sonhar acordada. As notas dela estão a baixar muito, e a professora está preocupada. Ela diz que a Alice tem tido dificuldade em se concentrar e que está sempre cansada.”

Embora eu já suspeitasse o que se passava com a Alice, não sei dizer quantas crianças recebo por preocupações com PHDA que, na verdade, sofrem de uma crónica privação de sono. Pense naqueles dias em que tem de acordar para apanhar um voo de madrugada. Dormiu apenas algumas horas e, por isso, não consegue concentrar-se e fica muito agitado e esquecido. Contudo, o leitor não tem PHDA, mas uma dívida de sono. Ou seja, assim que põe o sono em dia, a sua concentração e a sua memória voltam ao normal. Muitos miúdos não dormem o suficiente, mas não conseguem perceber que, na verdade, estão sempre cansados. Uma vez que a medicação para a PHDA pode ter um impacto bastante negativo no sono, é muito importante que consideremos esta questão antes de sequer pensarmos em medicação. Pode ser difícil lidarmos com esta questão, mas, muitas vezes, a melhor coisa que podemos fazer pelos nossos filhos, e por nós próprios, é ajudá-los a dormirem melhor.

A Alice disse-me que demorava muitas vezes, pelo menos, uma hora a adormecer, que quase todas as noites acordava por volta das duas da manhã e que tinha dificuldade em voltar a adormecer. Então, acordava de manhã cedo, exausta, mas sem conseguir tornar a adormecer. Depois de ouvir tudo isto, as coisas estavam a começar a fazer sentido na minha cabeça.

Há nove sinais clínicos de depressão. Para fazermos esse diagnóstico, não só cinco desses sinais têm de estar presentes num doente, durante um período superior a duas semanas, como um deles tem de ser a tristeza ou a falta de interesse por coisas de que gostávamos antes. Depois acabei por descobrir que a Alice se sentia mesmo muito em baixo, mas eu soubera desde logo que ela tinha deixado de se interessar pela escola e pelas atividades extracurriculares. Também dormia mal, tinha pouca energia, dificuldade em se concentrar e sofria de “agitação psicomotora”, que são outros sintomas de depressão clínica.

A agitação psicomotora é algo muito comum em crianças com depressão e, quando as crianças não têm a capacidade de nos dizer que estão tristes, estarmos atentos a este fenómeno pode ajudar. A agitação psicomotora é uma forma que o nosso sistema encontra para nos mostrar que está em dificuldades, quer por estarmos irrequietos, como acontecia com a Alice (que, por exemplo, não conseguia ficar quieta, beliscava a pele ou repuxava a roupa), quer, pelo contrário, por o nosso raciocínio, a nossa fala e os nossos movimentos estarem lentos. Outras características essenciais da depressão são mudanças no apetite ou no peso, sentimentos de culpa e de que não temos valor e pensamentos sobre suicídio.

Com o passar do tempo, a Alice acabaria por me dizer que tinha todos os sintomas e sinais de depressão. Tal como acontece com muitos miúdos com doença mental, a depressão da Alice desenvolvera-se em alturas difíceis. E também como com todos os miúdos em crise, eu corria o risco de me focar apenas nela, deixando passar as pistas que as relações e o ambiente nos oferecem e que me guiariam para as causas e para as estratégias de recuperação. Enquanto pediatra do desenvolvimento, fui treinado para olhar para lá do doente à minha frente. Todo o contexto do doente, a família e a comunidade mais ampla, é fundamental, uma vez que tanto influenciou o passado como influenciará o futuro.

As experiências adversas durante a infância podem levar a um trauma de desenvolvimento em crianças. Muitas pessoas sabem o que são o abuso e a negligência, mas a disfunção familiar contribui de modo significativo para problemas relacionados com o desenvolvimento e com a saúde mental. As discussões entre os pais, o abuso de substâncias, a doença mental e a violência que ocorrem no seio das famílias têm um impacto devastador no desenvolvimento das crianças, porque o desafio que constituem para a segurança e para a estabilidade de uma criança tolhe o crescimento do cérebro e aumenta o risco de doença mental. Estas experiências vão-se repercutindo nos pensamentos da criança, continuando a traumatizá-la mesmo depois de o perigo ter passado. Este trauma de desenvolvimento pode ser facilmente diagnosticado, de modo incorreto, como sintoma de PHDA, autismo ou ansiedade porque o comportamento das crianças que experimentaram ambientes e relacionamentos hostis é muitas vezes problemático.

No caso de algumas crianças, podemos julgar que a causa dos seus problemas é a ansiedade por si só, mas elas talvez tenham vivido acontecimentos significativos, pelo que o medo que sentem pode não ser doença mental, mas uma resposta legítima àquilo por que passaram. Para outras crianças, os mecanismos de coping que usam para lidarem com as situações difíceis podem levar ao autoisolamento e à evitação, o que tem impacto nas suas relações de um modo que pode assemelhar-se ao autismo. Noutras crianças ainda, a falta de concentração e a hipervigilância podem assemelhar-se à desatenção e à hiperatividade que se observam na PHDA, tal como acontecia com a Alice. Um fator que torna tudo mais complexo é que as crianças que se encontram nestas condições correm também um maior risco de trauma de desenvolvimento, uma vez que as suas necessidades vão para lá das capacidades dos seus cuidadores. Também correm o risco de dar continuidade a estas experiências na sua própria vivência de parentalidade, perpetuando o ciclo do trauma multigeracional. Apanharmos cedo problemas como o trauma de desenvolvimento e a doença mental nestas crianças, cuidarmos delas e orientarmo-las, ajudando-as a trilhar os seus percursos complicados, leva à criação de comunidades mais saudáveis para as gerações vindouras.

À medida que as crianças vão ficando mais velhas, tentamos dar-lhes mais controlo sobre o cuidado que recebem na clínica, ao passo que as mais pequenas necessitam frequentemente de que os adultos sejam a sua voz. A Alice era suficientemente crescida e não precisava de que o Nick estivesse com ela nas consultas, pelo que passámos muito tempo juntos, só nós os dois. Nesses momentos, fiquei a saber muito sobre ela.

Depois da avaliação, todos concordámos que a Alice não tinha PHDA, mas que precisava de tratamento para a depressão. Há duas abordagens principais para a depressão, e ambas poderiam aplicar-se ao caso da Alice. A primeira implicava reduzir-lhe o stress. Fiquei a saber que os avós dela eram muito rígidos. Depois das aulas, a Alice tinha de completar uma lista de tarefas, além dos trabalhos de casa, o que significava que ela não tinha tempo livre. Mesmo que quisesse, não teria oportunidades para estar com os amigos. Os avós também não lhe permitiam ter qualquer tipo de acesso à tecnologia e limitavam-lhe as hipóteses de que ela tinha de desenvolver mais as suas ligações sociais. Além de sair de casa para ir à escola, a Alice tinha sido informada de que tinha de manter visitas supervisionadas aos pais. Como passei por isto quando era pequeno, conseguia compreender o quão horrível podia ser. Termos um estranho ali presente quando estamos a tentar passar tempo de qualidade com um familiar é uma experiência horrível para todos os envolvidos. O Nick disse-me que a Alice se fechava muitas vezes depois destas visitas e que se tornava ainda menos faladora do que o costume. A primeira coisa que teríamos de fazer era diminuir ao máximo o stress da Alice e aumentar o apoio que lhe era dado. A segunda abordagem envolvia psicoterapia individual. Começou a ter consultas com uma psicóloga incrível com quem eu trabalhava, a Jess, que eu sabia que a ajudaria a orientar-se durante estes tempos difíceis.

Tal como muitas crianças que sofrem de depressão, a Alice estava bloqueada. Os jovens ficam frequentemente bloqueados devido a três erros que o seu cérebro comete a propósito da situação em que se encontra. Primeiro, eles julgam que tudo é culpa sua: se todas as coisas negativas acontecem por causa deles, as positivas ou se devem à sorte ou eles encontram outro modo de as diminuírem. Segundo, acham que a experiência negativa que estão a ter irá passar para todas as áreas da sua vida: todos os relacionamentos irão desintegrar-se, toda a gente irá perceber que não valem nada e que o falhanço que estão a ter numa área acabará por se espalhar para outras. Por fim, acham que a situação em que se encontram é eterna: o sentimento de desespero é tão esmagador que não lhes permite imaginar a vida para lá dele.

A perda da esperança pode ser tão devastadora que a pessoa deixa de querer viver. Conheço muito bem esta doença mental debilitante. Estive clinicamente deprimido, não via motivo para viver e, por vezes, não queria continuar vivo; foi, de longe, o mais período difícil que tive de atravessar na minha vida adulta, e estes sentimentos tomaram conta de mim por mais de um ano. No entanto, essa experiência ajudou-me a encontrar uma identificação com as crianças com depressão e deu-me uma capacidade instintiva para criar espaços seguros e abertos onde os miúdos pudessem partilhar os seus sentimentos. De resto, também fez com que me tornasse mais determinado em proteger os meus filhos desta doença mental tanto quanto possível, sobretudo por a minha história fazer com que o risco que eles correm de sofrer de depressão seja maior.

Fonte: Sapo por indicação de Livresco

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Educação digital, cidadania e IA: As novas exigências da Comissão Europeia para o ensino (que começam já este ano)


A União Europeia vai avançar já em 2026 com um conjunto de novas exigências dirigidas a escolas, professores e alunos, no âmbito de um pacote de reformas educativas destinado a modernizar os sistemas de ensino e a adaptar a aprendizagem aos desafios tecnológicos, digitais e democráticos do século XXI. O objetivo final é que, até 2030, todos os Estados-membros tenham concluído um processo de transformação estrutural das suas escolas.

A estratégia foi anunciada pela Comissão Europeia, que voltou a colocar a educação no centro da agenda política comunitária, classificando-a como um pilar essencial para o desenvolvimento social, económico e democrático do continente. Num contexto marcado pela digitalização acelerada, pela inteligência artificial e por crescentes exigências de coesão social, Bruxelas considera que o modelo educativo europeu tem de evoluir rapidamente para responder às novas realidades.

Em comunicado, a vice-presidente da Comissão Europeia e comissária responsável pela Educação, Roxana Mînzatu, sublinhou que o executivo comunitário mantém um “compromisso com a educação como base do modelo social da Europa e pedra angular da nossa prosperidade, democracia e competitividade”, deixando clara a orientação política que irá guiar os próximos anos.

A responsável defendeu que a educação deve ser vista como um instrumento central de capacitação individual e coletiva, afirmando que “capacita as pessoas para moldarem o seu próprio futuro, fortalece as nossas democracias e promove a coesão social”, ao mesmo tempo que “prepara os europeus para enfrentar desafios comuns, desde as transições digital e ecológica até à segurança e à resiliência, garantindo que todos possam participar plenamente na sociedade”.

Digitalização e novas competências no centro da reforma

Grande parte das mudanças previstas prende-se com o reforço das competências digitais e cívicas. Para a Comissão Europeia, a formação tradicional já não é suficiente num mundo dominado por tecnologia, dados e inteligência artificial.

No mesmo comunicado, a instituição sustenta que “num mundo moldado pela digitalização e pela inteligência artificial, as competências básicas devem ir além da literacia, da matemática e das ciências”, defendendo que “a educação digital e a educação cívica são igualmente essenciais, pois permitem aos alunos pensar criticamente, participar democraticamente e navegar no mundo digital”.

Este entendimento servirá de base a um novo pacote legislativo e programático que deverá ser formalmente adotado ao longo de 2026. Segundo a Comissão, o conjunto de medidas terá como meta “capacitar os alunos, apoiar os professores e modernizar as escolas”.

O plano prevê reforçar as competências fundamentais através de sistemas de apoio direcionados, estimular a cooperação entre estabelecimentos de ensino de diferentes países e impulsionar a integração de ferramentas digitais no processo educativo. Bruxelas quer ainda fomentar redes de colaboração entre escolas de todos os Estados-membros, promovendo uma maior convergência de práticas pedagógicas.

Educação cívica e formação profissional reforçadas

Para além da componente tecnológica, a Comissão pretende aprofundar a dimensão europeia da educação para a cidadania. O ano de 2026 é descrito como decisivo para esse reforço, em linha com o chamado Escudo Europeu da Democracia, iniciativa que procura consolidar a participação cívica e a resiliência institucional face a ameaças como a desinformação.

Paralelamente, será revista a estratégia europeia de educação e formação profissionais, com o objetivo de tornar esta via “mais atrativa e inovadora”, aproximando-a das novas exigências do mercado de trabalho e das transições digital e ecológica.

Meta fixada para 2030

O horizonte definido por Bruxelas é claro: até 2030, todos os países da União deverão ter adaptado os seus sistemas educativos às novas orientações. Entre as prioridades estratégicas destacadas estão a literacia em inteligência artificial, o bem-estar digital dos estudantes, a capacidade de resistência à desinformação, a soberania tecnológica europeia e uma cooperação mais estreita com empresas e agentes do setor das tecnologias educativas.

Com esta agenda, a Comissão Europeia pretende garantir que as escolas do bloco comunitário acompanham a transformação global da sociedade e da economia, preparando as próximas gerações para um mercado de trabalho cada vez mais tecnológico e para uma participação cívica mais informada.

Fonte: Executive Digest por indicação de Livresco

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O engenheiro cego ex-Google que criou uma app gratuita para devolver a autonomia a milhares de pessoas


Existem histórias que nos fazem acreditar no poder transformador da tecnologia, e a de Jonathan Santos é, sem dúvida, uma delas. Engenheiro de software com um currículo invejável, que inclui passagens por gigantes como a Google e a Samsung, Jonathan carrega consigo uma particularidade que moldou a sua visão de mundo: é cego. Mas longe de permitir que a deficiência visual fosse uma barreira intransponível, utilizou o seu conhecimento em Inteligência Artificial para criar a Visionauta, uma aplicação gratuita que está a devolver a independência a milhares de pessoas.

O percurso de Jonathan é marcado por uma excelência académica e profissional que desafia preconceitos. Doutorado em Engenharia da Computação pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, no Brasil, o investigador sempre focou a sua carreira no desenvolvimento de tecnologias de acessibilidade. No seu interior, a motivação para criar a Visionauta não foi apenas académica; foi uma necessidade vital de quem conhece, na primeira pessoa, os desafios de atravessar uma rua, ler uma ementa num restaurante ou identificar uma nota de dinheiro num balcão de pagamento. 

Visionauta: Mais do que uma app, um assistente visual portátil

Lançada recentemente na Google Play Store, a Visionauta funciona como uma espécie de “extensão visual” para quem não pode ver ou tem baixa visão. A aplicação utiliza modelos avançados de IA para interpretar o mundo em tempo real através da câmara do smartphone. Ao contrário de outras soluções mais complexas ou pagas, Jonathan desenhou a Visionauta para ser simples, rápida e, acima de tudo, gratuita. O engenheiro descreve-a frequentemente como “a aplicação que eu próprio gostaria de ter tido”, focando-se na resolução de problemas práticos do quotidiano.

Entre as funcionalidades principais, destaca-se o leitor de textos em voz alta, capaz de interpretar desde documentos oficiais a rótulos de embalagens. A app consegue também identificar moedas como o Real, o Dólar e o Euro e possui uma lupa eletrónica com modos de alto contraste para quem ainda possui visão residual. Mas o verdadeiro “cérebro” da operação é o assistente de IA integrado, que permite ao utilizador fazer perguntas sobre o ambiente ao seu redor, recebendo descrições detalhadas de cenas, objetos e cores.


O nascimento da ideia no mundo académico

A génese da Visionauta ocorreu durante o mestrado de Jonathan em Engenharia da Computação. Sob a orientação dos professores Ismar Frango e Nizam Omar, especialistas em Pensamento Computacional e IA, o projeto ganhou corpo como uma ferramenta de inclusão. Jonathan explica que, no seu interior, a arquitetura da app foi pensada para ser leve, permitindo que corra em smartphones menos potentes, garantindo que a acessibilidade não seja um luxo, mas um direito acessível a todos.

A experiência adquirida na Google e na Samsung foi fundamental para que Jonathan conseguisse implementar algoritmos de reconhecimento de imagem de alta precisão. No entanto, o seu diferencial não é apenas o código, mas a empatia técnica. Como pessoa cega, ele entende que a latência de um segundo na resposta da IA pode ser a diferença entre a segurança e o perigo ao caminhar numa cidade movimentada. Por isso, a Visionauta foca-se na velocidade de processamento e na clareza do feedback sonoro, adaptado às necessidades reais da comunidade.

Independência e o futuro da acessibilidade digital

O impacto da Visionauta já se faz sentir a nível global. Ao oferecer uma ferramenta que identifica objetos por comando de voz e descreve cenas em tempo real, Jonathan Santos está a fornecer as chaves da autonomia a pessoas que, muitas vezes, dependiam de terceiros para as tarefas mais básicas. Para o engenheiro, o trabalho não termina com o lançamento da app; a investigação contínua em IA é o que permitirá, num futuro próximo, uma integração ainda mais profunda com dispositivos vestíveis e óculos inteligentes.

A história de Jonathan é um lembrete poderoso de que a inclusão digital não deve ser uma funcionalidade secundária no desenvolvimento de software. Pelo contrário, quando o design é feito por quem vive a exclusão, o resultado é uma inovação que beneficia toda a sociedade. A Visionauta é a prova de que a Inteligência Artificial, quando orientada por propósitos humanos e éticos, tem o potencial de ser um dos maiores niveladores sociais da história da humanidade.

Conclusão

Jonathan Santos não é apenas um engenheiro de software brilhante; é um visionário que viu na escuridão a oportunidade de iluminar o caminho de outros. Através da Visionauta, ele transformou o seu conhecimento em liberdade. Disponível na Play Store para Android, a aplicação é hoje um símbolo de resistência e de esperança para a comunidade de deficientes visuais. Em 2026, num mundo cada vez mais dominado por ecrãs, Jonathan recorda-nos que o mais importante é garantir que ninguém fique para trás, independentemente da forma como perceciona o mundo ao seu redor.

Fonte: Android Geek por indicação de Livresco

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Afinal, o autismo pode afetar meninos e meninas de forma igual



Historicamente, o autismo tem sido visto como uma condição que afeta homens e meninos com mais frequência do que mulheres e meninas. Mas um novo estudo em grande escala, baseado em dados de milhões de pessoas, sugere que esse não é realmente o caso, pelo menos na Suécia.

Embora os rapazes sejam diagnosticados com a condição em taxas mais elevadas durante a infância, na idade adulta, a proporção é de aproximadamente 1:1, o que sugere que não se trata de um caso de menos mulheres terem autismo: apenas não são diagnosticadas até mais tarde na vida.

As taxas de diagnóstico de perturbações do espetro do autismo (PEA) têm vindo a aumentar desde a década de 1990, mas os diagnósticos não são iguais entre homens e mulheres.

O DSM-5, que define condições de saúde mental e tratamentos recomendados, afirma que, para cada quatro homens diagnosticados com autismo, apenas uma mulher recebe o diagnóstico.

Mas o estudo recente, publicado na revista The BMJ, liderado pela epidemiologista Caroline Fyfe, do Instituto Karolinska, na Suécia, mostra um quadro muito diferente, somando-se a um crescente conjunto de pesquisas que sugerem que mulheres e meninas autistas estão a ser prejudicadas pelos atuais sistemas de diagnóstico e tratamento.

O autismo é um distúrbio do desenvolvimento neurológico caracterizado por dificuldades nas interações sociais e na comunicação, interesses intensos e específicos em determinados tópicos ou atividades, comportamentos repetitivos e uma forte preferência pela rotina.

O tratamento do autismo envolve o controlo dos sintomas. É um distúrbio do espectro, o que significa que algumas pessoas precisam de apoio extra — por exemplo, se não conseguem falar, ganhar dinheiro ou viver de forma independente —, enquanto outras podem viver de forma independente e talvez consigam controlar os seus sintomas com terapia, adaptações no local de trabalho e tratando sintomas específicos e outros problemas de saúde que muitas vezes ocorrem em conjunto.

O diagnóstico na infância geralmente baseia-se nas opiniões dos cuidadores e profissionais de saúde sobre se os comportamentos da criança se enquadram na descrição do DSM-5.

“Pesquisas mais recentes, bem como experiências comuns relatadas por mulheres autistas, sugerem que a proporção real é menos distorcida e que as práticas atuais não estão a reconhecer o autismo em muitas mulheres até mais tarde na vida, se é que o reconhecem”, explica a paciente e defensora do autismo Anne Cary.

Estas evidências parecem apoiar o argumento de que preconceitos sistémicos no diagnóstico, em vez de uma verdadeira lacuna na incidência, estão na base do comum.

A equipa de Fyfe analisou os registos médicos de mais de 2,7 milhões de suecos nascidos entre 1985 e 2020 para acompanhar como a prevalência e as proporções do diagnóstico clínico de TEA mudaram desde o nascimento até aos 37 anos de idade.

Embora os homens fossem normalmente diagnosticados com autismo em taxas muito mais elevadas do que as mulheres durante a infância, essa proporção entre os sexos estabilizou-se em quase igual por volta dos 20 anos de idade.

Esta descoberta sugere que o autismo não é, na verdade, uma condição predominantemente masculina: apenas leva mais tempo para que meninas e mulheres sejam diagnosticadas. A razão para isso ainda não está clara.

“Essa proporção entre homens e mulheres pode, portanto, ser substancialmente menor do que se pensava anteriormente, a ponto de, na Suécia, talvez não ser mais distinguível na idade adulta”, relatam Fyfe e a sua equipa.

“Essas observações destacam a necessidade de investigar por que é que os grupos femininos recebem diagnósticos mais tarde do que os indivíduos do sexo masculino.»

Como Cary aponta, é possível que os dados possam ser explicados por um atraso no aparecimento de traços autistas nas mulheres. “Se for esse o caso, pode não ser razoável supor que o autismo esteja a ser ignorado nas meninas”, diz.

Mas ela também cita algumas boas razões pelas quais a omissão no diagnóstico é uma possibilidade séria.

“Em primeiro lugar, é provável que existam diferenças entre os sexos na apresentação dos traços autistas, especialmente na infância. Em segundo lugar, os informantes (por exemplo, pais, professores) e os diagnosticadores podem esperar que as mulheres sejam menos propensas a ser autistas e desenvolver um preconceito contra o reconhecimento de traços autistas nas meninas», explica ela.

Porém, de acordo com o Science Alert, os muitos anos de dados do estudo, provenientes de uma amostra tão grande, tornam as conclusões bastante robustas, mas algumas limitações precisam ser levadas em consideração.

Por um lado, os dados são de uma grupo inteiramente nascido na Suécia, portanto, podem não representar o que está a acontecer no resto do mundo. Não foram considerados os efeitos de condições que normalmente ocorrem juntamente com o transtorno do espectro autista, como TDAH, deficiência intelectual, depressão e ansiedade. Também não aprofundou outros fatores demográficos, como raça ou estatuto socioeconómico.

Houve também uma falta de dados anteriores a 2001, o que significou que a idade do diagnóstico de TEA foi geralmente mais tardia para os grupos mais antigos do estudo, o que pode significar que a diferença na idade do diagnóstico entre homens e mulheres pode, na verdade, estar subestimada.

“Pesquisas futuras devem se concentrar nas diferenças fenotípicas na manifestação do TEA por sexo e nas implicações para as práticas de triagem e diagnóstico», concluem Fyfe e a sua equipa.

Fonte: ZAP por indicação de Livresco

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A saga de Rúben não acabou: tem autismo, o Estado paga-lhe a escola, mas transporte para lá não

Primeiro não podia ir à escola, depois foi autorizado a ir, mas perdeu o direito ao transporte. Na maior parte dos dias, resta aos pais pagar a um TVDE. Caso ilustra desigualdades do ensino especial.Havia muito que o ano lectivo tinha começado, mas Rúben Silvestre, 16 anos, continuava em casa. Tinha uma vaga num estabelecimento de ensino especial à sua espera, um parecer a atestar que aquela era a resposta mais adequada para ele, mas a autorização do Ministério da Educação tardava. Acabou por chegar, com boas notícias: o Estado continuaria a financiar a escolarização de Rúben, já não numa escola regular, mas numa instituição particular de solidariedade social (IPSS) especializada. Em Novembro começou finalmente a ir à escola. Dias depois, contudo, iniciava-se uma saga que dura até hoje: a família do rapaz percebeu que ao ir para uma IPSS perdia o direito a ter transporte escolar. Não é assim em todos os municípios, calha ser assim naquele onde vive.

Rúben tem uma perturbação do espectro do autismo. Apresenta dificuldades de comunicação funcional e limitações na compreensão e aplicação de aprendizagens. Tem frequentado as aulas, mas são os pais que estão a pagar quase todos os dias a um “motorista de confiança” que o leva de Vialonga, concelho de Vila Franca de Xira, onde vive, até Lisboa, onde fica o estabelecimento de educação especial da Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo – APPDA, no qual foi colocado.

São cerca de 30 km de distância para lá, e outros tantos para regressar a casa, o que nas contas da mãe, Helena Ferreira, pode chegar aos 400 euros por mês. Diz que não sabe até quando conseguirá pagar essa despesa. Tanto ela como o marido trabalham, boa parte dos dias em teletrabalho, e não conseguem ser eles a transportar o filho regularmente. Bruno Silvestre, o pai, é técnico analista, a mãe de Rúben trabalha numa linha de apoio ao cliente com horários muito rígidos.

Nos últimos meses, Helena foi sendo confrontada com respostas contraditórias que mostram que, na verdade, não há uma única regra sobre a quem compete transportar crianças com necessidades especiais que estão a fazer a escolaridade obrigatória numa IPSS. Há situações muito díspares.

Crianças de outros concelhos que frequentam a APPDA em Lisboa têm acesso a transporte escolar garantido, diz Inês Neto, directora pedagógica da APPDA, que neste ano tem três alunos, um de Oeiras e dois de Loures, com transporte assegurado pelas respectivas autarquias. “No caso de Lisboa, as famílias articulam directamente com a Carris para aceder ao transporte.”

Já a Câmara Municipal de Vila Franca (CMVX) diz que não assume o transporte no caso de Rúben porque a APPDA não é uma escola pública, é uma IPSS.

Continuação da notícia em Público






domingo, 8 de fevereiro de 2026

Práticas de ensino baseadas na ciência melhoram a leitura, diz o Banco Mundial

Cerca de 70% das crianças de 10 anos que vivem em países de baixo e médio rendimento não conseguem ler e compreender um texto simples, adequado à sua idade. Esta é uma das principais conclusões do relatório «Effective Reading Instruction in Low- and Middle-Income Countries: What the Evidence Shows», desenvolvido no âmbito de uma iniciativa conjunta do Banco Mundial e da UNICEF.

Segundo os autores, uma das principais causas desta crise de literacia é a persistência de métodos de ensino da leitura não sustentados pela evidência científica. A isto, somam-se fatores estruturais como a escassez de livros, a formação insuficiente de professores, o tempo letivo limitado, o ensino em línguas que as crianças não dominam e práticas pedagógicas pouco ajustadas aos níveis reais de aprendizagem. Em muitos destes países, após vários anos de escolaridade, as crianças encontram-se tão abaixo dos níveis de proficiência esperados que é improvável tornarem-se leitoras competentes.

O relatório sublinha, no entanto, a existência de evidência robusta de que os níveis de leitura podem melhorar de forma significativa quando se adotam práticas de ensino eficazes e baseadas na ciência.

Esta investigação, que analisou mais de 151 estudos realizados em países de África, Ásia, América Latina, Caraíbas e Médio Oriente, mostra que a compreensão da leitura assenta em duas capacidades interligadas: a descodificação e a compreensão da linguagem. Ambas são indispensáveis para que as crianças compreendam o que leem, e devem ser desenvolvidas, em simultâneo, desde os primeiros anos.

Leia o relatório, aqui.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Como a exposição à matemática na primeira infância contribui para o sucesso académico

É tão natural para as crianças pequenas pensar matematicamente sobre o seu mundo quanto usar a linguagem.

Elas desenvolvem conhecimentos matemáticos à medida que manipulam objetos e raciocinam e representam quantidades usando palavras numéricas, objetos e, eventualmente, algarismos escritos. Por exemplo, podem aprender a usar palavras numéricas para contar objetos, comparar tamanhos de conjuntos, usar itens do dia a dia, como clipes de papel, para medir objetos, manipular formas para criar novas formas (por exemplo, tangrams) e combinar objetos para resolver problemas simples de adição.

Décadas de investigação demonstraram como o conhecimento matemático das crianças quando entram no jardim de infância prevê o seu sucesso académico a longo prazo em todas as disciplinas.

No entanto, muitas crianças ainda não têm a oportunidade de desenvolver esse conhecimento básico antes de entrarem no jardim de infância. Mas há medidas que os líderes educacionais da Califórnia podem tomar para melhorar o acesso das crianças a oportunidades de aprendizagem matemática de alta qualidade na primeira infância.

As respostas encontram-se em quatro áreas:
  1. Melhor preparação no ensino da matemática para educadores da primeira infância
  2. Mais tempo dedicado ao ensino da matemática em programas para a primeira infância, incluindo pré-escola, pré-jardim de infância (PK) e jardim de infância de transição (TK)
  3. Conteúdo matemático mais rigoroso nos currículos da primeira infância
  4. Maiores parcerias com as famílias para apoiar a aprendizagem da matemática pelas crianças
Embora os educadores da primeira infância sejam obrigados a ensinar todas as disciplinas, eles frequentemente relatam não se sentirem preparados ou confiantes para ensinar matemática. A razão é clara: uma pesquisa com faculdades que oferecem formação para professores de pré-escola revelou que apenas 21% delas ofereciam cursos sobre o ensino de matemática.

Essa preparação inadequada aumenta a necessidade de aprendizagem profissional contínua para os educadores da primeira infância. Infelizmente, os educadores da primeira infância têm menos probabilidades do que os professores do ensino básico de receber oportunidades de aprendizagem profissional. Além da aprendizagem profissional baseada no currículo, os educadores da primeira infância precisam de formação específica em desenvolvimento e ensino de matemática, bem como acesso a avaliações formativas. Isso inclui ter oportunidades de participar de experiências práticas de matemática para desenvolver crenças positivas e habilidades para o ensino da matemática. Também inclui oportunidades para aprofundar a sua compreensão de como e quando as crianças desenvolvem habilidades matemáticas e como apoiar a aprendizagem matemática das crianças de maneiras que estejam intimamente alinhadas com os seus níveis de habilidade atuais e os promovam. Eles também precisam de acesso a avaliações formativas fáceis de usar para que possam usar rotineiramente os dados sobre as habilidades matemáticas dos seus jovens alunos para orientar o seu ensino.

Dado o seu sentimento de despreparo, não é surpreendente que os educadores da primeira infância geralmente dediquem muito pouco tempo ao apoio à aprendizagem matemática das crianças pequenas. Pesquisas revelaram que as crianças em idade pré-escolar dedicam apenas dois minutos por dia a atividades matemáticas nos seus programas de educação infantil. Mas quando os educadores da primeira infância têm conhecimentos sobre o desenvolvimento matemático precoce, ensinam matemática com mais frequência.

Surpreendentemente, mesmo os currículos abrangentes usados em programas como o Head Start e os programas estaduais para a primeira infância não preparam adequadamente as crianças para os padrões matemáticos do jardim de infância. Na verdade, a matemática compreende apenas 14% do total de atividades desses currículos. Para enfrentar esse desafio, os programas podem implementar currículos complementares com eficácia comprovada, como o “Pre-K Mathematics”. Currículos rigorosos de matemática na primeira infância desafiam e envolvem as crianças em atividades matemáticas adequadas ao seu desenvolvimento. Essas opções complementares devem fornecer uma base sólida em conceitos matemáticos informais alinhados com cada vertente da California’s Preschool/Transitional Kindergarten Learning Foundation (PTKLF), que descreve os conhecimentos e habilidades essenciais que a maioria das crianças de 3 a 5 anos e meio pode alcançar.


Idealmente, essas atividades são facilitadas pelos professores por meio de aulas regulares em pequenos grupos, nas quais eles podem oferecer apoio com base no progresso dos alunos. Os professores também devem integrar intencionalmente esses conceitos matemáticos nas rotinas diárias (por exemplo, contar os amigos que estão vestindo rosa) e na aprendizagem baseada em brincadeiras (por exemplo, explorar o volume na mesa de areia).

Por fim, as diferenças nas práticas domésticas relacionadas à matemática das famílias estão relacionadas às diferenças no conhecimento matemático inicial das crianças. Muitas vezes, as famílias não sabem como apoiar o desenvolvimento matemático dos seus filhos, mas querem recursos para ajudar. As famílias aumentam as suas práticas relacionadas com a matemática em casa quando recebem informações contínuas, claras e úteis sobre o desenvolvimento matemático precoce, incluindo ideias para apoiar a aprendizagem matemática dos seus filhos durante as rotinas diárias. As famílias podem ajudar os seus filhos a construir vocabulário matemático e a praticar competências matemáticas durante as refeições, rotinas antes de dormir, limpeza, viagens, brincadeiras (tanto dentro como fora de casa) e em inúmeros outros contextos.

Eles podem praticar a contagem e a cardinalidade enquanto partilham as refeições (por exemplo, um cuidador pode dizer que uma criança receberá seis mirtilos no almoço e ajudá-la a contar os mirtilos e confirmar que ela tem seis mirtilos no prato). Também podem praticar a comparação de quantidades usando palavras numéricas durante as refeições (por exemplo, pedir a uma criança que diga quem na mesa tem mais mirtilos e, em seguida, enfatizar que eles têm mais, pois têm 10 mirtilos e a criança tem seis mirtilos). Também podem praticar aritmética simples durante as refeições (por exemplo, podem trabalhar em conjunto para descobrir quantos mirtilos a criança terá se comer dois dos seus seis mirtilos).

É importante ressaltar que há evidências científicas de que o reforço dos esforços das famílias para apoiar a aprendizagem matemática das crianças em suas casas e comunidades, bem como o ensino de matemática pelos educadores da primeira infância, leva a melhorias maiores nas habilidades matemáticas das crianças do que apenas o reforço do ensino de matemática pelos educadores. Assim, os educadores da primeira infância devem ter a intenção de ampliar o ensino de matemática em sala de aula, apoiando as famílias a envolverem as crianças em oportunidades de conversar e praticar matemática em casa e em suas comunidades.

Ao abordar esses fatores inter-relacionados, podemos transformar o ensino da matemática na primeira infância e apoiar todos os alunos na construção de uma base sólida para o seu sucesso académico futuro.

Traduzido com a versão gratuita do tradutor - DeepL.com

Fonte: Ed Source por indicação de Livresco

Violência em contexto escolar cresce quase 60% em seis anos

A violência em contexto escolar continua a marcar de forma preocupante a vida de milhares de estudantes e profissionais da educação em Portugal. Entre 2020 e 2025, a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) apoiou 1.249 vítimas deste tipo de crime, registando um aumento de 58,9% ao longo do período analisado, segundo as Estatísticas APAV divulgadas no âmbito do Dia Internacional da Não Violência e da Paz nas Escolas.

Os dados traçam um retrato claro da vulnerabilidade de crianças e jovens no espaço educativo. A maioria das vítimas era do sexo feminino (64,7%) e a faixa etária mais representativa situava-se entre os 11 e os 14 anos, etapa frequentemente associada a maior exposição a fenómenos de intimidação, exclusão social e agressão entre pares.

A grande maioria das vítimas apoiadas tinha nacionalidade portuguesa (81,2%), embora se registe também um número significativo de estudantes estrangeiros. Em termos geográficos, Lisboa lidera o número de casos reportados, com 289 situações acompanhadas pela APAV, seguida do Porto (170) e de Faro (130), evidenciando uma dispersão nacional do fenómeno.

A violência escolar, conforme definida pela UNESCO, abrange todas as formas de agressão que ocorrem dentro e nas imediações dos estabelecimentos de ensino, incluindo no percurso de e para a escola e em ambientes digitais ligados à vida escolar. Entre os comportamentos identificados contam-se agressões físicas, ameaças, humilhações, assédio, perseguição, exclusão social e violência sexual, bem como práticas de violência online.

No que respeita às pessoas agressoras, foram identificados 1.349 autores de violência, número superior ao de vítimas por se verificar, em vários casos, a actuação de mais do que um agressor sobre a mesma pessoa. A maioria era do sexo masculino (55,6%). A relação entre vítima e agressor revela uma forte incidência de violência entre pares, com 39,4% dos casos a envolver colegas de escola ou de trabalho, confirmando a centralidade do bullying e de outras dinâmicas abusivas no quotidiano escolar.

Apesar da gravidade das situações, apenas cerca de metade das vítimas (50,1%) apresentou queixa ou denúncia junto das autoridades judiciais ou policiais. Em 40,4% dos casos, não houve formalização do processo, um dado que continua a levantar preocupações quanto ao medo de represálias, à normalização da violência ou à falta de confiança nos mecanismos de proteção.

Perante este cenário, a APAV sublinha a importância da prevenção, da sensibilização e do reforço das respostas institucionais. A associação disponibiliza apoio jurídico, psicológico e social gratuito e confidencial, através da Linha de Apoio à Vítima 116 006, em funcionamento nos dias úteis, das 8h00 às 23h00, bem como através da sua rede nacional de serviços de proximidade.

Os números agora divulgados confirmam que a violência em contexto escolar permanece um desafio estrutural para o sistema educativo português, exigindo uma resposta articulada entre escolas, famílias, autoridades e organizações da sociedade civil, de modo a garantir ambientes de aprendizagem seguros, inclusivos e livres de medo.

Fonte: Campeão das Províncias por indicação de Livresco

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

“InclusiveFuture: a whole school approach”: Novo MOOC do Técnico para professores e educadores com inscrições abertas

Como parte do projeto InclusiveFuture e alinhado com as prioridades do Erasmus+, o Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, apresenta o “InclusiveFuture: a whole school approach”, um novo MOOC (Massive Open Online Courses), especificamente concebido para professores(as) e educadores(as) da Europa.

Este curso online gratuito assume-se como uma ferramenta fundamental para transformar a prática educativa no sentido de uma maior inclusão e sustentabilidade. É o 30.º MOOC produzido pelo Técnico, alguns dos quais com várias reedições.

Durante este curso, cada participante terá oportunidade para:
  • Promover a educação inclusiva, aprendendo a conceber práticas que abracem a diversidade e garantam oportunidades de aprendizagem iguais para cada estudante;
  • Integrar a sustentabilidade, desenvolvendo competências que liguem o bem-estar ambiental, social e económico ao ensino diário e à cultura escolar.
Através da reflexão, do intercâmbio e da aplicação prática, cada participante poderá reforçar a sua capacidade de criar experiências de aprendizagem significativas que contribuam para um futuro mais inclusivo e sustentável.

Todos os conteúdos do MOOC estão em inglês, português, espanhol e romeno, havendo mais duas versões MOOC, uma com os conteúdos em inglês, búlgaro, grego e turco, e uma outra com os conteúdos em inglês, finlandês e húngaro.


Fonte: Instituto Superior Técnico por indicação de Livresco

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Pessoas com deficiência: reforço de direitos com nova estratégia e bilhete gratuito para acompanhante

O Conselho de Ministros aprovou no dia 29 de janeiro a criação do bilhete gratuito para acompanhante de pessoa com deficiência e uma Resolução que aprova a nova Estratégia para os Direitos das Pessoas com Deficiência para o período 2026-2030, medidas que afirmam o compromisso com o reforço da inclusão, da autonomia e da participação plena na vida cultural e social.

O Governo aprovou a versão final do decreto-lei que cria o bilhete gratuito para acompanhante de pessoa com deficiência em recintos de espetáculos e equipamentos culturais públicos ou geridos por entidades públicas, promovendo a acessibilidade cultural.

A Estratégia para os Direitos das Pessoas com Deficiência para o período 2026-2030 tem como missão acelerar a mudança e a eliminação das barreiras que persistem no quotidiano das pessoas com deficiência, garantindo o exercício efetivo de direitos em todo o território nacional, incluindo viver de forma autónoma e participar ativamente na vida social, económica, política e cultural, com igualdade de oportunidades e respeito pela diversidade.

Fonte: Conselho de Ministros por indicação de Livresco

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Está Portugal preparado para mentes que vão além do esperado?

Milhares de crianças sobredotadas passam despercebidas nas escolas portuguesas, muitas vezes rotuladas como “bons alunos” ou confundidas com casos de desmotivação e indisciplina. Fomos ao Colégio Paulo VI, em Gondomar, conhecer famílias e jovens acompanhados pela Associação Nacional de Estudo e Intervenção na Sobredotação.

No Colégio Paulo VI, em Gondomar, as aulas são diferentes aos sábados de manhã. Jovens de perfis distintos, distribuídos por salas consoante a idade, reúnem-se para atividades que fogem ao currículo escolar tradicional. Têm uma característica em comum: a sobredotação.

Os jovens da ANEIS, Associação Nacional de Estudo e Intervenção na Sobredotação, regressam ao ambiente escolar ao fim de semana para terem aulas diferentes, marcadas pelo estímulo intelectual e por uma forte interação entre alunos e professores.

Na sala 59, o professor André Matias conduz uma reflexão em torno do medo, a partir de poemas de Luís de Camões. Nesta manhã de sábado, a sala de aula transforma-se num espaço de partilha, onde as ideias circulam livremente e dão lugar a debates ricos e construtivos.

Sobredotação em Portugal: uma realidade invisível

Psicólogos e associações dedicadas aos sobredotados, como a APCS, Associação Portuguesa das Crianças Sobredotadas, estimam que entre 3% a 5% das crianças e jovens portugueses sejam sobredotados, o que corresponde a dezenas de milhares de alunos em idade escolar.

Um sobredotado é alguém que revela um elevado potencial numa ou em várias áreas, como a intelectual, artística, criativa, social ou motora. Para que esse potencial se desenvolva plenamente, é fundamental a existência de apoio adequado, tanto ao nível escolar como emocional.

A sobredotação está associada a um Quociente de Inteligência (QI) pelo menos dois desvios-padrão acima da média. No entanto, a maioria dos casos nunca chega a ser formalmente identificada. A falta de mecanismos sistemáticos nas escolas e de formação específica faz com que muitos destes jovens cresçam sem acompanhamento adequado, frequentemente rotulados apenas como “bons alunos” ou, noutros casos, como jovens desmotivados e desinteressados.

Desde que se lembra, Manuel, de 18 anos, percebeu que era diferente das outras crianças. Aprendia mais depressa, era mais atento e perspicaz e entediava-se facilmente com os métodos de ensino e os interesses comuns da escola primária. Na sala de aula, era “o inteligente da turma”, aquele a quem os colegas pediam ajuda e que os professores reconheciam como estando sempre um passo à frente.

Aos oito anos, essa diferença ganhou um nome. Manuel foi identificado como uma criança sobredotada por um dos membros fundadores da ANEIS.

Fundada em 1998, a iniciativa nasceu como resposta às famílias e aos jovens sobredotados que se sentiam isolados, incompreendidos e sem apoio adequado do sistema educativo português. Para Manuel, foi também o local onde, pela primeira vez, encontrou outros jovens “como ele”.

A psicóloga clínica Stephanie Silva, da ANEIS, recorda o caso de Manuel: “Quando ele entrou aqui era bastante antissocial, não falava com ninguém, não conseguia ter uma conversa normal”, diz ao JPN. Apesar das elevadas capacidades cognitivas, passava grande parte do tempo isolado, tanto na escola como nos momentos de lazer. “Era daquelas crianças que estavam sempre sozinhas, sentadas nas escadas, sempre com livros”, recorda a psicóloga.

Desde muito cedo, revelava interesses altamente especializados, sobretudo na área da história, e um planeamento do futuro pouco comum para a idade. “Ele trazia um caderno já com tudo planeado: as universidades onde queria estudar, o preço das propinas, das rendas, estava tudo escrito”, conta. A integração na ANEIS marcou um ponto de viragem. “Aqui eles fazem-no sair da zona de conforto”, sublinha, destacando a importância do contacto com pares semelhantes para o desenvolvimento social e emocional do jovem.

ANEIS, “o balão de oxigénio”

A associação acompanha crianças e jovens, em várias dimensões do desenvolvimento – desde o nível intelectual e académico à dimensão social, emocional, artística, motora e mecânica. O objetivo é oferecer respostas ajustadas às necessidades específicas destes jovens, promovendo a sua inclusão escolar e social e valorizando as suas capacidades, sempre com base no conhecimento científico e nas melhores práticas educativas.

“Nós desenvolvemos um conjunto de respostas educativas para estas crianças e jovens. No fundo, estes programas são importantes, porque a escola ainda não consegue responder às necessidades, às características individuais e singulares destas crianças e jovens e, portanto, os programas de enriquecimento revelam-se de importância maior”, explica Alberto Rocha, um dos fundadores e atual presidente da ANEIS.

A ANEIS é a única Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) de utilidade pública em Portugal especializada em sobredotação. Atualmente, apoia cerca de 600 jovens em todo o país, com idades compreendidas entre os três e os 19 anos. Destes, aproximadamente, cem são acompanhados na área do Porto.

A grande diversidade etária obriga a uma abordagem adaptada a cada fase do desenvolvimento, de forma a respeitar o ritmo e interesses de cada uma. O grupo dos “precoces” engloba as crianças mais novas, com idades entre os três e os seis anos; o grupo dos “iniciados”, crianças entre os sete e os dez anos; os “intermédios”, dos onze aos dezasseis e os “avançados”, onde estão inseridos os mais velhos.

Alberto Rocha sublinha que os jovens acompanhados podem apresentar dupla excecionalidade, combinando sobredotação com dislexia ou perturbações do espectro do autismo, por exemplo: “Eles também podem ter uma dupla excepcionalidade, que é ter uma disortografia ou autismo e ter sobredotação. Muitos autistas de alto funcionamento são muito capazes, muito inteligentes. Alguns deles estão aqui no programa.”

O diretor ressalta que, além das necessidades cognitivas, muitos destes jovens enfrentam desafios sociais e emocionais: preferem conversar com adultos ou pares mais velhos, interessam-se por temas complexos e sentem-se isolados em contextos em que não são compreendidos.

“Para muitos deles, o balão de oxigénio é o sábado de manhã aqui”, afirma.

Dificuldades no diagnóstico

Antes de chegarem à associação, muitas crianças enfrentam outro obstáculo: os diagnósticos incorretos. Segundo Alberto, algumas chegam à associação medicadas no seguimento de diagnósticos de hiperatividade e défice de atenção. “Isto quer dizer que existem falsos diagnósticos e que estamos a prejudicar as crianças ao medicá-las”, alerta.

Alberto Rocha, que também é psicólogo, revela que, em muitos casos, a mudança de contexto é decisiva. Quando passam a integrar projetos desafiantes, que exigem pensamento crítico, criatividade e envolvimento ativo, os comportamentos que motivaram a medicação prévia, desaparecem ou diminuem significativamente.

Outro ponto destacado é o desperdício de talentos quando jovens concretizam o seu potencial académico fora de Portugal, não regressam:

"Dos mais velhos, não está cá nenhum, em Portugal. Estão na Nova Zelândia, no Canadá, na Finlândia… e provavelmente já não regressam. Será que nós não precisamos deste potencial para nos ajudar a sair da cauda da Europa? Estamos a desperdiçar talento enquanto outros países aproveitam os nossos jovens”, reflete o presidente da ANEIS.

O desconhecimento em torno da sobredotação continua a ser um dos maiores entraves ao seu reconhecimento: “Continua a haver um certo desconhecimento sobre o que é sobredotação e, se calhar, até um estigma. Nós só conseguimos mudar isso na base da formação, porque se nós não esclarecermos, se as pessoas não estiverem informadas, é muito difícil elas mudarem esses estereótipos ou esses mitos”, clarifica o psicólogo.

Entre os estigmas, está a ideia de que um jovem sobredotado é sempre o melhor da turma, mas não é assim: “Não têm de ser os melhores da turma. Nós temos alunos em situação de underachievemnt (baixo rendimento) e que têm um alto potencial, mas a escola não tem currículos que os satisfaçam e eles nivelam-se e vêm por aí abaixo”.

Para o psicólogo, a solução passa por uma reflexão profunda sobre o modelo educativo português. Apesar das transformações sociais e tecnológicas das últimas décadas, o ensino mantém-se praticamente inalterado. O presidente da associação fala da escola como “transmissiva”, centrada na memorização de conteúdos e pouco orientada para o desenvolvimento de competências. Para alunos sobredotados, este modelo é particularmente limitador.

No plano legislativo, Alberto Rocha defende que Portugal dispõe já de um enquadramento suficientemente abrangente para responder a estas necessidades. O problema reside na forma como as leias são aplicadas. O decreto-lei para a inclusão permite uma grande margem de atuação, mas a falta de orientações concretas faz com que poucas escolas avancem. Esta desigualdade traduz-se em oportunidades distintas para alunos com perfis semelhantes.

Para Alberto Rocha, o início da solução passa pela formação de professores, tanto ao nível do ensino superior como ao longo da carreira. Sem esse investimento, torna-se difícil identificar, compreender e apoiar estes alunos dentro da sala de aula. A ANEIS tem procurado colmatar esta lacuna através de ações de sensibilização, formação em escolas e criação de ferramentas de apoio pedagógico.

A ANEIS assume também um papel ativo na investigação científica, desenvolvendo estudos nas áreas da sobredotação, da criatividade, da motivação e da excelência humana. O objetivo é compreender melhor estes perfis e melhorar continuamente as práticas educativas.
A técnica da “camuflagem”

Margarida tem oito anos e já sabia o abecedário completo quando tinha apenas dois. Durante a entrevista com o JPN, mostrou resistência em responder às perguntas. Consciente de que estava a ser gravada, limitou-se a acenar com a cabeça, ao invés de verbalizar as respostas. Quando a psicóloga reformulava as questões, Margarida respondia com frases curtas: “sim”, “não” ou “não sei”.

À pergunta sobre o que gostaria de fazer no futuro, Margarida respondeu “cabeleireira”. Quando questionada sobre a razão, disse “para pentear cabelos”, acompanhando a frase com um sorriso que encerrava qualquer tentativa de aprofundamento. A entrevista avançou sem grandes desenvolvimentos, marcada por silêncios e respostas calculadas.

A postura de Margarida revelou mais do que as suas respostas verbais – manteve sempre o controlo da interação e limitou a partilha. Só mais tarde, com o enquadramento da psicóloga, esta atitude ganharia sentido.

“Ela adaptou-se muito ao vosso discurso e à vossa posição”, explica a psicóloga Stephanie Silva, que acrescenta ainda que este comportamento é comum nos sobredotados: “Acontece muito em contexto de aula, é uma forma de eles se camuflarem”.

Quando finalmente surge um diagnóstico

Stephanie Silva é responsável pelo despiste e avaliação de crianças sobredotadas na associação, realizando também acompanhamento clínico, quando solicitado pelas famílias. Segundo explica, o processo de despiste decorre em cinco sessões e procura avaliar capacidades cognitivas, bem como compreender o percurso da criança, os sinais que apresenta e a forma como se posiciona perante o mundo.

A primeira sessão envolve os pais e destina-se a recolher informação sobre o desenvolvimento da criança e esclarecer dúvidas. As seguintes são realizadas apenas com a criança e incluem provas de avaliação cognitiva, num processo bastante “longo e complexo”: “Eu peço sempre que seja [realizado] entre as 09h00, até às quatro, cinco da tarde – quando a criança ainda está desperta, porque se for feito à noite, eles começam a esfregar os olhos e estão cansados”, explica a psicóloga. Numa fase posterior, são ainda avaliadas a criatividade e a motivação.

O processo termina com a entrega e explicação do relatório final aos pais. A reação das famílias ao diagnóstico é, na maioria dos casos, de aceitação e alívio. Muitos pais chegam exaustos à procura de soluções para responder às exigências intelectuais dos filhos.

"Temos crianças de quatro, cinco anos, que pedem aos pais para explicarem a teoria da relatividade. Que pais é que sabem isso?”, conta a psicóloga.

Quando se confirma a sobredotação, recomenda que o relatório seja entregue à escola e, sempre que necessário, que sejam ativadas medidas de inclusão para adaptar o contexto escolar à criança.

Apesar da existência de um processo formal de despiste, a experiência de Stephanie permite-lhe identificar sinais de sobredotação no primeiro contacto. A postura corporal, a forma de falar, o olhar e o tipo de discurso são características típicas de crianças sobredotadas, facilmente reconhecíveis por profissionais experientes. Entre os traços mais comuns destacam-se um forte sentido de justiça, um espírito crítico apurado e interesses muito específicos. Nos mais novos, surgem frequentemente temas como astronomia, paleontologia ou história; na adolescência, tendem a diversificar-se, passando pelas artes, matemática, engenharia ou línguas.

No entanto, nem todos os profissionais da psicologia estão aptos para fazer esta avaliação, resultando, muitas vezes, em falsos diagnósticos. Foi o que aconteceu com Guilherme e Sebastião, filhos de Cátia Rodrigues. Guilherme, atualmente com 13 anos, foi diagnosticado aos nove, enquanto Sebastião, de sete anos, foi aos quatro.

“O primeiro contacto que tivemos foi com o pedopsiquiatra. Ao fim de 10 minutos, veio com um pseudo diagnóstico de hiperatividade e défice de atenção, com prescrição de medicação”, conta a mãe que, enquanto profissional de saúde, recusou aceitar um diagnóstico feito sem uma avaliação adequada, baseada em critérios clínicos rigorosos. Insistiu numa análise mais profunda, que revelou a sobredotação de Guilherme.

Cátia admite que a sua ideia de sobredotação foi totalmente desconstruída: “Para mim, para ser um aluno sobredotado, tinha que ser capaz de resolver problemas de física quântica”.

Aquando da confirmação do diagnóstico, a psicóloga responsável alertou que essa informação poderia “ser muito bem ou muito mal recebida” no contexto escolar. Várias instituições demonstraram resistência em adaptar respostas educativas às necessidades de Guilherme:

"Portas fechadas atrás de portas fechadas. Várias vezes disseram que não tinham recursos para assegurar os cuidados a crianças com dificuldades, muito menos a crianças que estavam noutro espectro. Todas as ferramentas que dávamos eram sempre encaradas como obstáculos”, conta a mãe.

Essa falta de preparação refletiu-se na autoestima de Guilherme. “Estava com uma autoestima muito baixa, porque não conseguia fazer as coisas como lhe eram pedidas. Não conseguia apresentar o raciocínio de um problema, nem explicar as coisas como era suposto os outros meninos explicarem”, descreve a mãe.

Para muitas crianças sobredotadas, frustração, perfeccionismo e ansiedade são sentimentos frequentes, explica a psicóloga Stephanie Silva, podendo levar à desmotivação escolar e ao isolamento. Ela ilustra com um exemplo vivido na ANEIS:

"Tenho, por exemplo, um menino que tirou 98% num teste e começou a bater em si próprio. Eles colocam objetivos muito rígidos na cabeça: se o professor diz que é para 100, então tem de ser 100. Estudam para isso. O mais irónico é que, quando lhes fazemos perguntas mesmo muito complicadas, eles sabem responder.

Segundo Stephanie, este perfeccionismo extremo está muitas vezes acompanhado de ansiedade, porque a escola tende a valorizar o resultado em vez do processo de aprendizagem, transformando erros em experiências de falha pessoal, e não em oportunidades de desenvolvimento.

Para estes alunos, compreender regras passa também por entender a sua razão de ser. “Questionar não é afrontar”, sublinha Cátia Rodrigues. Ainda assim, este comportamento é frequentemente interpretado como desafio à autoridade: “Cheguei a ouvir que éramos pais a criar crianças confrontacionais.” Dá como exemplo o filho mais novo que, desde muito cedo, respondia a um “porque não” com a exigência de uma explicação. Para ele, não se tratava de desobediência, mas de uma necessidade genuína de compreender. Esta situação levava a elevados níveis de frustração.

O próprio Guilherme relata as dificuldades em sala de aula. “Comecei a perceber que eu terminava as tarefas muito rápido. É muito chato, porque acabo as tarefas e não tenho nada para fazer. Uma coisa que a minha professora faz é pôr-me ao pé de alguém para ajudar”, conta.

Com a escola sem conteúdos específicos para estimular crianças com sobredotação e o tempo em casa insuficiente, a família recorreu à ANEIS, que se tornou “uma tábua de salvação”. Com atividades inovadoras e acompanhamento permanente, Guilherme recuperou a autoestima e passou a sentir-se integrado: “Sente-se mais incluído e, mesmo em termos de autoestima, está bastante melhor. Tem interesse e motivação em vir para cá”, conclui.

Algum tempo depois, Cátia levou o filho mais novo, Sebastião, a atividades da ANEIS, por conveniência, já que moravam longe e não era viável deixá-lo sozinho em casa. Numa sessão de escrita criativa, ele foi colocado numa sala com outras crianças com sobredotação. Nesse contexto, pela interação com os colegas e pela adaptação ao grupo, surgiram as primeiras indicações de que Sebastião também poderia ser sobredotado, o que foi confirmado em avaliação formal.

A mãe recorda que houve alguma dúvida: “Se tem um irmão sobredotado, é normal que seja inteligente não?” Ainda assim, os sinais eram claros: “Notamos uma capacidade de retenção muito elevada e desenvolvimento linguístico avançado. Desde cedo construía frases completas e compreendia conceitos complexos”, explica Cátia. A experiência com Guilherme ajudou a família a acompanhar Sebastião com mais atenção e a evitar erros anteriores.

Apesar do seu potencial, Sebastião tem interesses típicos da sua idade, contou que gosta de jogar futebol, Roblox, Fortnite e ver televisão, especialmente o desenho Bluey. Nas atividades da ANEIS, diverte-se muito a criar bonecos e construções em plasticina, fruto da sua imaginação: “Fazemos coisas que não existem no mundo”, diz.

Na escola, enfrenta os desafios comuns à maioria das crianças. Sobre aprender mais rápido que os colegas, explicou: “Acho que é melhor, porque quando chegamos a algo que eu já sei, a professora pergunta-me e depois aprendemos juntos.” Para ele, a facilidade na aprendizagem não é só vantagem pessoal, mas sobretudo uma oportunidade de ajudar os amigos.

A forma positiva como Sebastião descreve o ambiente em sala de aula, deve-se, em grande parte, à abordagem dos professores, sendo por isso importante que estes sejam informados do que o ensino a estudantes sobredotados implica. É precisamente esta perspetiva que o professor André Matias defende e tenta aplicar no seu trabalho educativo.

Um sistema criado para o aluno médio

André Matias leciona na Escola Secundária Eça de Queirós, na Póvoa de Varzim, e é colaborador da ANEIS. O contacto com a sobredotação começou quando foi convidado a dar uma aula sobre mitologia na associação. Ali, descobriu uma área da pedagogia que até então conhecia pelos estereótipos.

“De repente, encontrei um filão que desconhecia completamente”, conta. Após uma pós-graduação em Educação Especial, regressou à ANEIS com a convicção de que podia contribuir para um campo ainda pouco valorizado, sobretudo na área das humanidades.

Na associação, desenvolve um projeto que procura contrariar a ideia de que os alunos sobredotados se destacam apenas nas ciências exatas. Através da literatura, da filosofia e da história, tenta oferecer novas ferramentas cognitivas e sociais a jovens cuja curiosidade raramente cabe nos limites da escola tradicional.

A transposição desse trabalho para o ensino público revela-se difícil. “É complexo”, admite. Na ANEIS, os alunos partilham características semelhantes; na escola pública, o espectro vai das dificuldades de aprendizagem à sobredotação: “Aquilo que conseguimos fazer na associação é muito difícil de replicar numa turma de 28 alunos”, observa. Ainda assim, tenta aplicar algumas metodologias, mesmo que com menor alcance.

Para o professor, o problema começa no modelo educativo, pensado para “trabalhar para um aluno médio que não existe”. A consequência é um sistema que falha tanto com os alunos que precisam de mais apoio como com os que necessitam de mais desafio.

A identificação da sobredotação é outro ponto onde André aponta fragilidades: as escolas concentram-se nos alunos com dificuldades e, mesmo aí, a resposta é insuficiente. “Os sobredotados sofrem de um grande handicap: como sabem muito, parte-se do princípio de que não têm problema nenhum.” Mas saber mais não significa estar melhor integrado. Pelo contrário, muitos enfrentam isolamento, incompreensão e até bullying.

Os interesses não são comuns, os pares não compreendem, e isso cria distância.”, conta o professor.

Antes de chegarem à associação, alguns jovens vivenciavam sentimentos negativos, incluindo pensamentos de automutilação ou suicídio. Stephanie Silva, psicóloga da ANEIS, recorda casos em que isso se manifestava, por exemplo, através da escrita: “Ele escrevia poemas em que descrevia os seus pensamentos – a maneira como já tinha pensado em se suicidar e como isso poderia acontecer.”

É nesse contexto que espaços como a ANEIS ganham importância. “Ali”, diz André, “os jovens encontram pares com experiências semelhantes e deixam de se sentir estranhos”. A associação acaba por desempenhar um papel que, na sua opinião, deveria caber ao próprio Ministério da Educação: dar resposta concreta às necessidades destes alunos e apoiar também as famílias, muitas vezes exaustas perante a falta de respostas institucionais.

Nas salas da ANEIS, o desafio não é dar mais exercícios, mas estimular a curiosidade. No seu projeto “Pela mão da literatura vejo o mundo”, André Matias transforma textos em pontos de partida para reflexões sociais, históricas e culturais, complementadas com visitas de estudo e trabalho de campo. Cada aula exige horas de preparação. “São alunos para quem a resposta nunca chega. Querem sempre saber porquê.”

Para o professor, a formação dos docentes é urgente: “Ainda há muito estigma. Muitos pensam que um aluno sobredotado não tem problemas.” Uma ideia que considera fruto da ignorância: “Os estigmas são sempre isso.” Pode ser controverso, mas o professor defende a criação de escolas especializadas para sobredotados, à semelhança do que acontece com o desporto de alto rendimento, embora reconheça o risco de criar bolhas sociais.

Sobredotação à luz da neurociência

O papel do professor e das escolas revela-se importante para o desenvolvimento cognitivo destes jovens e pode ser determinante para o seu percurso. O mesmo confirma o neurocientista Miguel Castelo Branco. Em declarações à SIC Notícias, o cientista aponta que nascer com determinadas capacidades não é, por si só, garantia de um percurso extraordinário. “Nós podemos nascer com um dom, mas se não o cultivarmos ele vai-se esbatendo”, afirma, chamando a atenção para o papel decisivo do ambiente que rodeia o indivíduo.

Segundo Miguel Castelo Branco, a inteligência não pode ser reduzida a um único fator nem a uma métrica isolada. “A inteligência vem de um cocktail de condições, genéticas mas também do ambiente”, explica, defendendo que testes como o do QI têm limites claros. “O QI não vai prever o desempenho, o grau de sucesso que a pessoa vai ter na sociedade.” Pessoas com elevado potencial intelectual podem nunca concretizá-lo se não tiverem acesso a estímulos adequados, apoio educativo ou condições sociais favoráveis, enquanto outras conseguem desenvolver plenamente as suas capacidades quando encontram o contexto certo.

Apesar dos avanços da neurociência nas últimas décadas, o investigador reconhece que ainda existem muitas perguntas sem resposta. Em particular, não é ainda possível identificar concretamente o que distingue, a nível físico ou cerebral, uma pessoa sobredotada. Não há um padrão anatómico, estrutural ou funcional inequívoco no cérebro que explique porque alguns indivíduos apresentam capacidades excecionais.

A perspetiva apresentada pelo neurocientista é coerente com a abordagem adotada em documentos educativos oficiais, como o Guia para Professores e Educadores – Altas Capacidades e Sobredotação, da Direção-Geral da Educação, que descreve a sobredotação como um fenómeno multifatorial e dependente do contexto e não como uma “marca” visível no cérebro.

Esta incerteza científica confirma que o desenvolvimento do talento depende da interação contínua entre predisposição individual e contexto. O neurocientista defende que compreender o funcionamento do cérebro humano implica aceitar essa complexidade e reconhecer que o potencial intelectual não se esgota nem se define exclusivamente por características físicas observáveis.

Um potencial ainda por reconhecer

A sobredotação continua a ser, em Portugal, uma realidade amplamente invisível. A identificação formal e o acompanhamento especializado permanecem limitados, dependendo frequentemente da iniciativa de famílias, associações ou de profissionais isolados, mais do que de respostas estruturadas do sistema educativo. O enquadramento legal português prevê a possibilidade de respostas diferenciadas para alunos com altas capacidades, mas a aplicação prática é desigual. Muitas escolas não dispõem de currículos ou estratégias adaptadas, e a formação específica de professores sobre sobredotação é insuficiente, o que resulta em diagnósticos tardios ou incorretos, bem como em respostas educativas inadequadas.

Espaços como a ANEIS mostram que, quando os contextos educativos se ajustam às necessidades do aluno, o potencial das crianças e jovens sobredotados pode desenvolver-se de forma equilibrada, abrangendo dimensões intelectuais, sociais e emocionais. Nessas situações, observa-se aumento da motivação, melhor integração social e maior bem-estar emocional, contrastando com experiências em escolas tradicionais, onde interesses específicos podem ser incompreendidos e o rendimento escolar não refletir o verdadeiro potencial do aluno.

Guias oficiais da DGE destacam que a sobredotação é um fenómeno multifatorial e dependente do contexto, envolvendo capacidades cognitivas, criativas e motivacionais, e que nem sempre se traduz em notas elevadas ou desempenho académico superior. A identificação e acompanhamento adequados requerem observação sistemática, avaliação especializada e estratégias pedagógicas adaptadas, de forma a oferecer oportunidades para o desenvolvimento pleno das capacidades dos alunos.

O desafio central permanece na necessidade de formação docente continuada, sensibilização das escolas e disponibilização de recursos específicos, permitindo que o sistema educativo português responda de forma consistente às necessidades destes alunos e evite que o talento se perca por falta de apoio adequado.

Fonte: JPN por indicação de Livresco