quinta-feira, 9 de abril de 2026

Ministro admite “grandes desigualdades” na Educação em Portugal

O ministro da Educação, Fernando Alexandre, participou, esta quarta-feira na 2.ª edição do Oeiras Education Forum e voltou a destacar a universalização do pré-escolar, a atratividade da carreira docente e a valorização das infraestruturas como os grandes desafios da Educação em Portugal

O ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, admitiu, esta quarta-feira, na 2.ª edição do Oeiras Education Forum que, em Portugal, ainda há “grandes desigualdades” na Educação em Portugal. Na intervenção que fez no encontro que se realiza esta quarta e quinta-feira, no Tagus Park, em Oeiras, Fernando Alexandre elegeu a universalização do pré-escolar, a falta de professores e as infraestruturas como os grandes pilares para eliminar as desigualdades da educação em Portugal.

“Enquanto não corrigirmos as grandes desigualdades, estamos longe de alcançar aquela que é a missão da escola pública. Em Portugal, temos uma grande desigualdade entre regiões no acesso à educação e no acesso a uma educação de qualidade. (…) [Nas provas Moda], a região Norte é a região que tem os melhores resultados, sistematicamente, em termos de avaliação das aprendizagens. Depois temos a região centro, mas depois temos uma diferença muito grande para, em particular, a Península de Setúbal e o Algarve, que têm resultados bastante piores do que a região Norte. (…) A Grande Lisboa, que também tem resultados bastante abaixo da região norte”, sublinhou.

Fernando Alexandre considerou que é preciso adotar estratégias para a universalização do pré-escolar a 100% em todas as idades e em todas as regiões do país, uma vez que os dados existentes dão conta de que as crianças que conseguem melhores resultados no primeiro ciclo frequentaram o pré-escolar. “Se olhamos para a taxa de cobertura do pré-escolar em Portugal, em termos globais, nos cinco anos, estamos praticamente nos 100%, nos quatro anos, em 96% e, nos três anos, em 83/84%”, garantiu o ministro, adiantando que a aposta da tutela tem sido a abertura de mais salas de pré-escolar, seja através de contratos de associação com IPSS ou de contratualização com municípios. “Houve 21 municípios que assinaram protocolos com o Ministério nos últimos meses, desde o início deste ano letivo, o que mostrou uma grande recetividade da parte dos municípios para resolver o problema”.

A falta de professores continua a ser o grande drama da escola pública, com Fernando Alexandre a garantir que, também neste aspeto, assistimos a “grande desigualdade” entre as regiões: “No Norte, há mais de 10 mil professores profissionalizados que não estão a dar aulas, só que não estão disponíveis para vir para Lisboa”.

Todos os anos se reformam cerca de quatro mil professores e os novos docentes não chegam para colmatar estas saídas. O ministro destacou as medidas do Governo para criar atratividade na carreira e para formar novos professores, e que a grande aposta tem sido a formação de novos professores nas instituições de ensino superior nas regiões carenciadas, já que “sabemos que se formarmos professores no Norte, eles depois não vão para o Algarve, ou vão resistir a ir para o Algarve”.

Fernando Alexandre falou ainda da questão das infraestruturas, sublinhando o número das intervenções da Parque Escolar: “Estamos a falar de 387, que vão ser intervencionadas até o final desta década, num valor total de investimento, que já está mobilizado, de 1.550 milhões de euros”.

“Cerca de metade do problema está em Lisboa e Vale do Tejo. Dos mil milhões de euros do Banco Europeu de Investimento, que vão ser investidos em Educação, 450 milhões de euros vão ser investidos em Lisboa e Vale do Tejo, precisamente porque é a região com escolas com piores condições em termos de infraestruturas”, disse o ministro.

Fernando Alexandre considerou que as desigualdades sociais e democráticas se combatem “com uma escola pública mais forte, garantindo que todas as escolas têm professores, que têm bons professores, que estão bem organizadas, porque nós sabemos que é através da escola que nós conseguimos equilibrar, nós conseguimos corrigir as desigualdades no ponto de partida”.

Fonte: CNN Portugal por indicação de Livresco

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Quando a escola não pode fingir que não vê

Há narrativas públicas que, mais do que esclarecer, revelam um profundo desconhecimento da realidade, onde persiste o discurso fácil e sem conteúdo. Isto, para além de fragilizar a sociedade, torna-se mais grave quando feito por decisores políticos, que encontram na exclusão o seu foco, espalhando inverdades e acirrando ódios.

A discussão acerca da presença de Assistentes Sociais nas escolas é um, de muitos exemplos. Quando alguém defende que a escola deve “limitar-se a ensinar”, como se o ensino pudesse acontecer desligado da vida concreta dos alunos, percebe-se que está a falar de uma escola teórica, quase imaginária, e não da realidade que nos envolve.

A escola recebe crianças e jovens, provenientes de diversos contextos socioeconómicos, que não entram na sala, do mesmo ponto de partida. Uns vivem contextos familiares estáveis, com apoio, acompanhamento e segurança. Outros vêm marcados pela pobreza, pelo conflito doméstico, pela negligência, pela instabilidade emocional, pela ausência de rede de apoio, por situações de sofrimento que não desaparecem com o toque da campainha. Fingir que isso não interfere com a aprendizagem não é defender o rigor. É, simplesmente, recusar a realidade.

Não se trata de dizer que a escola que a escola tem de resolver todos os problemas da sociedade. Não tem. Mas, também, não pode ignorar o “elefante no meio da sala”, que comporta o absentismo, cansaço, dificuldades de concentração, insucesso repetido, desmotivação, abandono escolar precoce e sofrimento silencioso que, muitas vezes, passa despercebido até ser demasiado tarde, gerando ciclos de pobreza.

É precisamente por isso que a presença de Assistentes Sociais nas escolas faz sentido. Não para substituir professores. Não para ocupar o lugar das famílias. Não para transformar a escola numa espécie de laboratório social. Faz sentido porque há problemas que condicionam diretamente a aprendizagem e que exigem intervenção técnica específica. Exigir que a classe docente, sozinha, dê resposta a tudo é injusto e insuficiente para os alunos.

Durante anos, foi exigido cada vez mais à escola, mas sem que tal representasse maior disponibilidade de recursos humanos qualificados para responder à complexidade crescente dos contextos sociais. E a verdade é que muitos professores já fazem muito mais do que ensinar. Escutam, sinalizam, tentam mediar conflitos, acompanham situações familiares difíceis, lidam com sinais de risco e tentam manter os alunos ligados à escola em circunstâncias duríssimas. Mas uma coisa é a sensibilidade e o compromisso dos docentes. Outra, muito diferente, é dispor de profissionais preparados especificamente para intervir nestas áreas.

O assistente social, em contexto escolar, tem um papel determinante, na identificação precoce de situações de vulnerabilidade, aproximando a escola das famílias, trabalhando em articulação com outros serviços, acompanhando casos de absentismo, prevenindo abandono escolar, ajudando a desbloquear problemas sociais que comprometem o percurso educativo e contribuir para uma intervenção mais integrada e mais humana. Isto não enfraquece a escola. Dá-lhe mais condições para cumprir a sua missão.

Alias, há uma contradição que não passa despercebida. Em determinados momentos, reconheceu-se publicamente que os fatores sociais influenciam os resultados escolares e que a presença de assistentes sociais nas escolas poderia ser uma resposta importante para combater problemas como o insucesso e o abandono. Mas, noutros momentos, surge um discurso completamente oposto, como se a simples presença destes profissionais ameaçasse a missão da escola. Esta oscilação revela que, muitas vezes, o problema não está na medida em si, mas na conveniência política com que é tratada.

Outra ideia errada é a de que integrar assistentes sociais na escola significa intrometer-se na vida das famílias ou retirar-lhes autoridade. Quem conhece o trabalho social sabe que isso não corresponde à verdade. O assistente social não existe para substituir famílias, mas para apoiar, orientar, mediar e criar pontes quando há dificuldades reais. E em contextos de grande fragilidade, esse apoio é decisivo para evitar ruturas graves.

A presença dos assistentes sociais nas escolas não deve ser vista como um excesso nem como uma cedência. Deve ser entendida como uma resposta racional a problemas concretos. Uma resposta que protege alunos, apoia famílias, complementa o trabalho dos professores e reforça a capacidade da escola pública para não desistir de quem mais necessita da mesma, porque nem todos encontram na política o seu elevador social.

No fundo, a questão é simples: queremos uma escola que ensina olhando para os alunos reais ou uma escola que imagina alunos sem problemas, sem contexto e sem desigualdades? A primeira é a mais exigente, porque obriga a enfrentar a realidade. A segunda é apenas mais confortável para quem prefere discursos fáceis.

Eu continuo a acreditar que a escola pública não tem de fechar os olhos para ser fiel à sua missão. Pelo contrário. Só quando vê a realidade dos seus alunos é que pode ser mais eficaz. A presença de assistentes sociais nas escolas não desvia a missão educativa: contribui para que esta seja justa e equitativa, real e capaz de responder às dificuldades dos alunos.

Márcia Pimentel

Fonte: Jornal Açores 9 por indicação de Livresco

terça-feira, 7 de abril de 2026

Fusão de ciclos. Fé cega ou debate a sério?

Há reformas que nascem tortas porque começam pelo fim. E depois há estas, que ainda nem começaram e já parecem condenadas ao velho pecado nacional de confundir decisão com pressa, estudo com propaganda e debate com encenação. A ideia de aproximar o 1.º e o 2.º ciclo pode até fazer sentido. Mas só faz sentido se for tratada como aquilo que é, uma mudança estrutural que mexe com a infância, com a organização da escola, com a formação de professores e com a vida concreta das famílias. O que não faz sentido é fingir que basta alinhar algumas teses importadas, citar meia dúzia de experiências estrangeiras e, de repente, imaginar que a realidade portuguesa se dobra por decreto.​​

É por isso que o estudo agora conhecido do Conselho Nacional de Educação merece ser lido com atenção e sem as habituais birras ideológicas. Não porque apresente uma verdade revelada, mas porque confirma o que muitos já sabiam há anos, o atual 2.º ciclo perdeu identidade, vive entre duas lógicas que nunca casaram bem e tem funcionado, demasiadas vezes, como um corpo estranho na arquitetura do ensino básico. Ora, se isto é verdade, então a pergunta séria não é se a fusão agrada ou desagrada a este ou àquele quadrante partidário. A pergunta séria é outra. O que estamos mesmo a tentar resolver.​

O estudo é útil porque não se limita a repetir lugares comuns. Vai à história, olha para a evolução do sistema, cruza recomendações anteriores, escuta professores, diretores, académicos e peritos, e mostra que a discussão não começou ontem. Há mais de quinze anos que se sabe que o salto do 4.º para o 5.º ano é uma espécie de travessia brusca, quase sempre mal-acompanhada, quase sempre mal pensada, quase sempre suportada por uma organização escolar que obriga a criança a mudar de ambiente, de regra, de relação pedagógica e de registo emocional sem qualquer preparação digna desse nome. Quem tem andado no terreno sabe-o bem. Quem vive de relatórios costuma descobrir isso tarde, quando descobre.​​

E é precisamente aqui que começa o problema político. Porque a reforma pode ser certa e ainda assim ser mal feita. Pode ser desejável e ainda assim ser prematura. Pode ter fundamento e ainda assim carecer de legitimidade se for imposta sem um debate público decente. E o debate que falta não é o debate das conferências onde se repetem fórmulas gastas sobre modernização, flexibilidade, competências e alinhamento internacional. Falta o debate a sério, aquele em que se pergunta o óbvio e se responde sem medo de parecer antiquado. Que infância queremos proteger. Que escola podemos sustentar. Que papel deve ter o Estado quando prolonga a permanência das crianças no espaço escolar até julho e, ao mesmo tempo, parece incapaz de lhes oferecer condições de verdadeiro bem-estar educativo.​

Porque é disso que estamos a falar. Não apenas de ciclos curriculares. Não apenas de uma engenharia administrativa sobre o ensino básico. Estamos a falar do modo como o Estado organiza a infância e a família. E aqui a questão é incómoda, mas inevitável. Queremos mesmo manter, todos os anos, milhares de crianças do pré-escolar, do 1.º ciclo e do 2.º ciclo dentro da escola até julho, como se isso fosse uma evidência natural e não uma escolha política pesada, com custos sociais, humanos e pedagógicos? Ou estamos apenas a empurrar para dentro da escola aquilo que o país não resolve fora dela, transformando a instituição escolar numa resposta total para problemas que pertencem também ao trabalho, ao apoio social, à habitação e à conciliação entre vida familiar e profissional ?​

Há quem prefira não fazer esta pergunta porque a pergunta estraga o conforto do discurso. Mas é precisamente a pergunta que importa. Se o calendário escolar se alonga, se a escola se torna cada vez mais o lugar onde a infância fica retida, então é preciso dizer claramente o que isso significa. Não basta chamar-lhe organização. Às vezes chama-se organização ao que é apenas incapacidade coletiva de pensar outra coisa. E o risco é este. Que a escola deixe de ser um lugar de aprendizagem equilibrada para passar a ser o último amortecedor de um Estado social cansado, fragmentado e sem imaginação.​

A fusão do 1.º e do 2.º ciclo, se avançar, não pode servir para maquilhar esse impasse. Tem de ser discutida, antes de mais, como uma resposta pedagógica e organizativa a um problema real. E esse problema está identificado. Há descontinuidade, há excesso de fragmentação, há uma transição mal resolvida, há uma organização do trabalho docente que, em muitos casos, favorece a dispersão em vez da continuidade. O estudo do CNE volta a sublinhar isso com serenidade e sem dramatismo. E ainda bem. Porque neste país, quando se fala de educação, há sempre quem prefira berrar em vez de pensar.​

Mas pensar exige mais do que repetir estudos estrangeiros. Exige saber ler o país onde se quer aplicar a reforma. E isso é precisamente o que tantos decisores fingem não perceber. Não se importam modelos como quem importa eletrodomésticos. Não se adapta um sistema educativo como se muda a decoração de uma sala. Há cultura escolar, há hábitos institucionais, há formação docente, há condições materiais, há desigualdades territoriais, há diferenças entre escolas e agrupamentos, há realidades urbanas e rurais, há estabelecimentos com equipas estáveis e outros onde a rotação é crónica. Tudo isso conta. Tudo isso muda a forma como uma reforma vive ou morre.​

Por isso, antes de celebrar a fusão ou de a condenar, o país devia fazer o que raramente faz, ouvir quem está no terreno. Ouvir professores do 1.º e do 2.º ciclo, ouvir diretores, ouvir coordenadores, ouvir quem sabe o que acontece quando uma criança deixa de ter uma referência única e entra numa estrutura mais dispersa, ouvir quem sabe como se constrói continuidade pedagógica sem slogans nem milagres. Porque a escola não se governa de gabinete. Governa-se com conhecimento situado, com experiência acumulada e com alguma humildade intelectual. Sem isso, o debate degrada-se em pose.​​

O que torna esta discussão ainda mais séria é a sua dimensão simbólica. Ao fim de tantos anos de hesitações, Portugal precisa de decidir se quer manter uma estrutura de ensino básico que vive há demasiado tempo numa espécie de meio caminho, ou se quer finalmente assumir uma organização mais coerente dos primeiros seis anos de escolaridade. Mas assumir isso não é o mesmo que correr para a fusão. Assumir isso é reconhecer que o atual modelo tem falhas e que qualquer mudança exige respostas para perguntas muito concretas. Como se articula o trabalho dos docentes. Como se garantem tempos de estabilidade. Como se evitam novas ruturas. Como se protege a ligação entre etapas. Como se regula a avaliação. Como se reorganiza a formação de professores. Como se assegura que a criança não é apenas um número numa arquitetura curricular mais bonita no papel do que na vida real.​

E a avaliação é um dos nós mais apertados. O estudo do CNE e as propostas que circulam apontam para um sistema sem notas quantitativas até ao 6.º ano, substituídas por descrições qualitativas, feedback contínuo e foco no progresso individual. Pode ser o caminho certo, alinhado com práticas internacionais que priorizam o desenvolvimento sobre a classificação mecânica. Mas é uma mudança de paradigma fraturante, que passa de um registo objetivo e familiar para um mais subjetivo e interpretativo. Por isso, deve ser bem pensada, com formação intensiva de professores, critérios unificados, pilotos testados e monitorização rigorosa para evitar que o bem-intencionado vire laxismo ou confusão. Sem preparação sólida, arriscamos uma reforma que soa progressista, mas falha no essencial, na clareza e na exigência quotidiana.​​

Há, além disso, um ponto que não convém varrer para debaixo do tapete. O país tem uma relação muito ambígua com o prolongamento do tempo escolar. Gosta de proclamar modernidade, mas continua preso a uma espécie de moral de calendário em que o tempo ocupado é sempre mais valorizado do que o tempo bem vivido. E isto vale tanto para o currículo como para o verão, para a ocupação da escola como para a pretensa necessidade de manter todos os alunos dentro de portas o máximo possível. O problema é que mais tempo não significa melhor tempo. E a escola, se quiser continuar a ser escola, não pode aceitar a lógica de que tudo se resolve com mais dias, mais horas e mais permanência.​

É por isso que esta discussão merece um nível de seriedade que, até agora, não teve. O estudo do CNE dá matéria para isso. Mas falta transformar matéria em conversa pública. E conversa pública não é um comentário apressado em roda de especialistas. É uma discussão onde se admite que há dúvidas legítimas, onde se reconhece que uma reforma desta dimensão não se impõe pela força da narrativa, onde se percebe que a escola não precisa de mais dogmas e muito menos de mais missionários do improviso.​

Em bom rigor, a questão central talvez seja esta. Não sendo contra a fusão à partida, que garantias concretas temos de que ela vai melhorar a aprendizagem, reforçar a continuidade e reduzir as ruturas? E, se não as temos, por que razão deveríamos avançar sem um debate largo, honesto e tecnicamente sólido? A política educativa portuguesa tem demasiadas reformas anunciadas como evidências e demasiado poucas decisões preparadas como devia ser. Talvez tenha chegado a hora de inverter esse vício.​

Porque uma reforma séria não se faz contra os professores, nem à margem dos diretores, nem de costas voltadas para as escolas. Faz-se com eles. E faz-se também com coragem para dizer o que tantos evitam. Se queremos mesmo mexer no desenho dos primeiros anos de escolaridade, então que se diga claramente o que se quer do sistema. Se queremos uma escola mais contínua, que se explique como. Se queremos prolongar a presença das crianças até julho, que se assuma o modelo social que isso implica. Se queremos copiar experiências de fora, que se prove que sabemos adaptá-las ao país real. Se queremos decidir bem, então primeiro temos de ouvir quem sabe e não apenas quem interpreta, de longe, estudos alheios como se isso bastasse para governar a escola.​

Sem esse debate, ficamos no mesmo de sempre. Reformas que prometem o céu e entregam nuvens. Desta vez, exijam melhor. Ouçam o terreno. Pensem a sério. As crianças não merecem menos.

Alberto Veronesi

Fonte: CNN Portugual por indicação de Livresco

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Abre concurso para vinculação aos quadros das escolas de mais de mil técnicos especializados

Em comunicado, o MECI adianta que os restantes 648 técnicos incluirão terapeutas da fala, educadores sociais ou técnicos de informática.

Segundo o ministério, a entrada nos quadros de 758 psicólogos eleva para 1.459 o número destes profissionais com um vínculo permanente aos quadros do MECI, passando todos as unidades orgânicas (agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas) a ter pelo menos um psicólogo.

“Atualmente, ainda 249 unidades orgânicas não dispunham de qualquer psicólogo vinculado aos quadros do MECI, situação que estes concursos de vinculação resolvem”, precisa o comunicado.

O ministério indica que o “rácio atual de um psicólogo nos quadros do MECI por cada 1.656 alunos passará para um psicólogo nos quadros do MECI por cada 796 alunos”, acrescentando que 62% das 807 unidades orgânicas ficam com dois ou mais psicólogos nos quadros do ministério.

Segundo o ministério, era necessário que todas as unidades orgânicas tivessem, “pelo menos, um psicólogo no seu mapa de pessoal”, tendo em conta a importância de se promover a saúde mental, assim como de “assegurar a orientação dos alunos, de prevenir o insucesso escolar, de apoiar alunos com necessidades educativas específicas e de melhorar o bem-estar de toda a comunidade educativa”.

Quantos às vagas para os outros técnicos especializados, competirá às escolas decidir, em função das necessidades do estabelecimento de ensino em causa, quais os profissionais a recrutar.

“Esta medida representa um investimento estrutural de mais de 38 milhões de euros, que responde a necessidades permanentes identificadas e que visa reforçar competências especializadas no apoio aos alunos em diversas áreas, de modo a assegurar o sucesso escolar, a igualdade de oportunidades, a equidade e a inclusão educativa e social, assim como o bem-estar físico e psicológico dos alunos”, adianta.

Fonte: 24 Notícias por indicação de Livresco

sábado, 4 de abril de 2026

"Todos nós nos sentimos sozinhos de vez em quando, mas as pessoas com síndrome de Down sentem-se sozinhas com mais frequência porque o mundo não é acessível e as pessoas tratam-nos de forma diferente"



Esther Volleberg representou a Inclusion Europe num evento realizado no Parlamento Europeu a 25 de março de 2026. O evento foi organizado para celebrar o Dia Mundial da Síndrome de Down. O tema do evento foi a solidão.

Esther Volleberg é natural dos Países Baixos. Esther é irmã de Inge Volleberg, que trabalha na Inclusion Europe como investigadora. Inge também interveio no evento.

Eis o que disse Esther Volleberg:

Chamo-me Esther Volleberg. Estou aqui em representação da Inclusion Europe. E vim falar sobre a solidão.

😢 A solidão não é agradável. Para ninguém. Nem mesmo para as pessoas com síndrome de Down. Mas as pessoas com síndrome de Down sentem-se muitas vezes sozinhas.

🎒 As pessoas com síndrome de Down têm mais probabilidades de se sentirem solitárias do que as outras pessoas. Por exemplo, as crianças com síndrome de Down têm mais dificuldade em integrar-se na escola. Eu tinha poucos amigos e era vítima de bullying na escola. Isto acontecia porque as outras crianças não me compreendiam, porque eu era diferente. Os professores zangavam-se com os agressores, mas isso não ajudava. Eu queria integrar-me, mas, em vez disso, sentia-me solitária.

🚌 As pessoas com síndrome de Down têm mais tendência a sentir-se sozinhas do que as outras pessoas. Por exemplo, nem sempre é fácil utilizar os transportes públicos, o que torna mais difícil visitar as pessoas. Tenho uma melhor amiga fantástica e vejo-a no trabalho. Mas ela mora longe e é difícil para mim aparecer para uma visita. Porque não sei que autocarro apanhar nem onde sair. Por isso, vejo-a com menos frequência do que gostaria, e isso faz-me sentir solitária.

💕 As pessoas com síndrome de Down têm mais tendência a sentir-se solitárias do que as outras pessoas. Por exemplo, porque é mais difícil encontrar um parceiro. Neste momento, não tenho namorado e não gosto disso. Há muito poucos lugares onde posso conhecer pessoas novas. Outras pessoas têm opiniões sobre com quem e quando posso namorar. E dependo da minha pessoa de apoio para marcar encontros. Como é tão difícil conhecer alguém, sinto-me sozinha.

As pessoas com síndrome de Down têm mais tendência a sentir-se sozinhas do que as outras pessoas. Por exemplo, sentes-te sozinha quando pensas no que os outros têm e que tu não podes ou não tens permissão para ter.

🪩 Sinto-me sozinha quando penso que outras pessoas da minha idade podem sair até tarde, enquanto eu não posso porque o serviço de táxi não funciona à noite.

👩🏻‍🍼 Sinto-me sozinha quando penso que outras pessoas podem escolher se querem ter filhos, enquanto essa escolha é feita por mim.

💸 Sinto-me sozinha quando penso que outras pessoas são pagas pelo seu trabalho num restaurante, enquanto o meu trabalho num restaurante é considerado como atividades de acolhimento diurno.

Todos nos sentimos sozinhos de vez em quando, mas as pessoas com síndrome de Down sentem-se sozinhas com mais frequência porque o mundo não é acessível para nós e as pessoas tratam-nos de forma diferente.

Isso tem de mudar.

Traduzido com a versão gratuita do tradutor - DeepL.com

Fonte: Inclusion Europe

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Como ler com as crianças? Algumas estratégias de leitura interativa para professores e famílias

É precisamente no ambiente familiar que a literacia ganha vida: são as primeiras conversas com os pais que lançam as bases do vocabulário; os livros criam e fortalecem vínculos afetivos; as histórias ajudam as crianças a descobrir o mundo.

A ciência mostra-nos que a leitura em voz alta estimula o cérebro dos mais novos das mais diversas formas. Além de desenvolver a fluência verbal e a capacidade de expressão, melhora a memória, a atenção e a compreensão, bem como a empatia e a autorregulação emocional.

Por dominarem a teoria e as práticas de leitura social, os professores podem ajudar a capacitar as famílias para a leitura, estabelecendo uma continuidade formativa entre a escola e a casa. Desta continuidade resultam contextos educativos mais ricos e pequenos leitores mais confiantes e interessados.

Estratégias de leitura interativa

1. Preparação da leitura

A leitura interativa começa muito antes de abrirmos o livro. Para que a experiência seja fluida, o adulto deve ler a história antecipadamente, garantindo que a sua voz consegue transmitir a emoção e o ritmo adequados.

A escolha do livro

Mais do que a idade cronológica das crianças, a seleção dos textos deve ter em conta o historial de cada uma. Que histórias já conhece? Que mundos já explorou? Que palavras já conhece? A seleção deve seguir um caminho progressivo que respeita os interesses e o nível de desenvolvimento linguístico individual:
  • Primeiros passos: Privilegie livros com mais imagem e menos texto, onde o conteúdo segue uma estrutura simples. Padrões rítmicos, rimas e repetições são bons auxiliares, pois facilitam a memorização e o reconhecimento. O melhor será escolher álbuns, dicionários ilustrados e livros que apresentem situações familiares e vocabulário de uso quotidiano, pois permitem que a criança associe imagens às palavras num contexto que já domina.
  • A evolução: À medida que a criança se sente confortável, é possível introduzir textos com maior densidade linguística. As imagens deixam de explicar tudo e passam a ser um complemento da história.
  • O poder da repetição: Tal como acontece com a inclusão de repetições intencionais dentro das histórias, é possível que as crianças peçam para ouvir a mesma história vezes sem conta. Esta repetição é muito importante, pois permite que a criança memorize a narrativa e consiga antecipar o que vem a seguir, adquirindo gradualmente confiança para contar a história sozinha.
  • Variedade de estilos: As leituras com os mais pequenos não têm de se cingir às histórias ditas infantis. É possível encontrar poesia e textos informativos sobre temas de eleição das crianças (animais, dinossauros, criaturas fantásticas, foguetões…) ajustados aos diferentes níveis de desenvolvimento de cada uma.
A preparação do cenário ideal

A leitura é um ato de atenção conjunta que deve estimular a participação ativa da criança. Para que crianças e adultos se concentrem na história, o ambiente deve estar livre de distrações:
  • Diga não aos ecrãs: Desligue a televisão e afaste os tablets e telemóveis.
  • Proximidade e afeto: Escolha um lugar confortável onde possa haver contacto físico. É importar proporcionar à criança a segurança emocional necessária para que se consiga entregar à história.
  • Rejeite a pressa: A leitura deve ser um momento de prazer, e não mais uma tarefa a cumprir. Leia devagar, respeitando o tempo de compreensão da criança. A qualidade da ligação entre a criança e quem lê a história é mais importante do que o número de páginas lidas.
2. Durante a leitura

Ler para uma criança é muito mais do que descodificar palavras: é uma experiência interativa que promove o afeto e a descoberta.
  • A importância da voz: Uma leitura expressiva é muito mais cativante e eficaz. Mude o tom nos momentos de diálogo e ajuste a velocidade de leitura para dar mais vida às personagens e aos diferentes momentos da ação. Uma leitura expressiva ajuda a criança a perceber as emoções e as intenções por trás de cada palavra.
  • Leia nas entrelinhas: Ajudar a criança a pensar sobre a história é tão importante como a história em si. É possível criar ligações intratextuais e extratextuais que enriquecem a experiência de leitura. Podemos questionar o que levou determinada personagem a agir de certa forma, antecipar possíveis desfechos e articular o conteúdo da narrativa com a experiência das crianças, os seus conhecimentos prévios ou as histórias que leu anteriormente. Este processo contribui para a consolidação de aprendizagens e para o desenvolvimento de competências de literacia.
  • Promova a participação ativa: A leitura deve ser um diálogo, e não um monólogo. Evite perguntas de «sim» ou «não», e prefira perguntas abertas que estimulem o pensamento crítico e a interpretação, como: «Porque achas que a personagem decidiu assim?» ou «O que farias tu nesta situação?».
  • Brinquem com as palavras: Repitam em coro palavras-chave ou expressões significativas do texto. Isto ajuda a fixar vocabulário e traz ritmo e entusiasmo à sessão de leitura.
  • Reformule e valorize: Sempre que a criança fizer um comentário ou responder a uma pergunta, aproveite para enriquecer a linguagem dela. Por exemplo, se a criança disser «O lobo é mau», pode responder: «Sim, o lobo parece assustador. Mas o Capuchinho Vermelho é corajoso!». Desta forma, está a ampliar o vocabulário da criança e a melhorar as suas competências comunicativas, introduzindo palavras novas de uma forma natural e positiva.
3. Após a leitura

A leitura de um livro pode ser apenas o início de um processo que consolida a compreensão e promove a expressão criativa das crianças. Depois da última página, há várias formas de ajudar as crianças a transformar a leitura numa aventura criativa.
  • Recriar a história: Recriar o texto exige criatividade e promove o desenvolvimento da linguagem oral. Em vez de recordar apenas o que aconteceu, incentive a criança a criar alterações, desenvolvendo o raciocínio e a imaginação. Peça à criança que altere o final, que mude o cenário ou que introduza uma nova personagem. Eis algumas perguntas que pode usar para facilitar esta nova criação: «E se o lobo tivesse conseguido entrar?» ou «E se a história acontecesse hoje, na nossa cidade, e não num castelo encantado?» ou ainda «Quem mais poderia chegar para ajudar a resolver o problema?»
  • Brinquem com as palavras: Escolha palavras marcantes do livro, como «gato» ou «balão», e desafie as crianças a encontrar rimas. Criar versos («O gato correu atrás do rato e perdeu o sapato»; «O balão fugiu da mão e foi parar ao Japão») é uma forma divertida de compreender e praticar os vários sons da língua, o que favorece a aprendizagem da leitura e da escrita.
  • Façam desenhos: O desenho ajuda a organizar as ideias e a fixar os momentos mais importantes da narrativa. Estimule a expressão visual das crianças pedindo-lhes que pintem a parte de que mais gostaram ou que desenhem a personagem principal numa situação que não surge descrita no livro.
  • Expressão dramática: O teatro é uma excelente forma de estimular o desenvolvimento de competências de comunicação e expressão oral. Além disso, encarnar uma ou outra personagem ajuda a criança a sair de si e a compreender o outro, favorecendo a empatia e a identificação das emoções.
Em suma, se partirmos da leitura de uma história para estimular o diálogo, o teatro, o desenho e a brincadeira, podemos fazer dos livros uma parte significativa da vida das crianças, contribuindo para uma aprendizagem mais ampla e para o desenvolvimento de inúmeras competências fundamentais.

Este artigo é baseado no conteúdo da ação de curta duração «Ler com as crianças: Estratégias de leitura interativa para professores e famílias», promovida pela Academia da Iniciativa Educação. Saiba mais sobre a formação, aqui.

Gabriela Velasquez e Raquel Lemos

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Dia Mundial da Consciencialização do Autismo

Hoje assinala-se o Dia Mundial da Consciencialização do Autismo. Neste âmbito, propomos um desafio, para participar, basta clicar no link

Contamos com a colaboração de todos!
O Grupo de Educação Especial

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Concurso de educadores de infância e de professores dos ensinos básico e secundário para o ano escolar de 2026/2027

Pelo Aviso n.º 7312-B/2026/2, de 31 demaroço, declar-se abertos os concursos interno e externo, destinados a educadores de infância e a professores dos ensinos básico e secundário, com vista ao suprimento de necessidades permanentes, mediante o preenchimento de vagas existentes nos quadros de agrupamento de escolas e escolas não agrupadas e nos quadros de zona pedagógica do Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) e os concursos de mobilidade interna, de contratação inicial e de reserva de recrutamento, para suprimento das necessidades temporárias, estruturadas em horários completos e incompletos, regulados de acordo com o disposto no Decreto-Lei n.º 32-A/2023, de 8 de maio, na redação conferida pelo Decreto-Lei n.º 15/2025, de 17 de março, para o ano escolar de 2026/2027.

O prazo para apresentação da candidatura decorre entre 1 abril e as 23:59 horas (Portugal continental) de 13 de abril de 2026 (correspondendo a 8 dias úteis).

terça-feira, 31 de março de 2026

Estratégia para os Direitos das Pessoas com Deficiência 2026-2030

Pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 64-A/2026, de 31 de março, aprova-se a Estratégia para os Direitos das Pessoas com Deficiência 2026-2030.

No preâmbulo, destaca-se que, em Portugal, a Estratégia Nacional para a Inclusão das Pessoas com Deficiência 2021-2025, que agora termina, proporcionou avanços significativos. Contudo, a sua avaliação evidenciou fragilidades na articulação interministerial, na monitorização, na implementação das medidas e na recolha sistemática de dados desagregados. Persistem ainda desafios estruturais em áreas cruciais como a acessibilidade, o emprego, a educação, a proteção social, a saúde, a habitação e a participação cívica.

Na área-chave da Inclusão, determina-se que, em 2030, as pessoas com deficiência têm acesso a uma educação inclusiva e a oportunidades de aprendizagem contínua, que lhes permitem desenvolver competências, alcançar o seu potencial e participar ativamente na sociedade e na economia do conhecimento.

Linhas de Ação prioritárias:
1 - Acesso equitativo a uma educação inclusiva até ao final da escolaridade obrigatória
2 - Formação contínua dos profissionais da educação, com vista a ação educativa inclusiva
3 - Melhoria das condições e dos mecanismos de transição para a vida pós-escolaridade obrigatória
4 - Acesso equitativo a uma educação inclusiva no ensino superior
5 - Produção e divulgação de conhecimento que sustente políticas públicas

Neste contexto, é aprovada ainda a Resolução do Conselho de Ministros n.º 64-B/2026, de 31 de março, que aprova os Planos de Ação da Estratégia para os Direitos das Pessoas com Deficiência 2026-2030.

A educação é um dos fatores mais determinantes para o emprego, o rendimento e a participação social. Em Portugal, os jovens com deficiência continuam a apresentar uma maior taxa de abandono escolar.

A Área-Chave “Educação” reforça o compromisso com práticas pedagógicas inclusivas, com a acessibilidade universal e digital no ensino superior e com a criação de oportunidades de requalificação para quem adquire deficiência ao longo da vida. A educação é, assim, afirmada como um direito ao longo da vida, e não como um privilégio condicionado pelas circunstâncias.

A implementação de planos de acessibilidade e inclusão em todas as escolas do ensino básico e secundário garante que os alunos com deficiência tenham acesso a ambientes físicos seguros, materiais adaptados e estratégias pedagógicas ajustadas às suas necessidades. A articulação com as famílias e com os serviços sociais reforça o acompanhamento individual e cria uma rede de apoio mais consistente. Estas medidas promovem igualdade de oportunidades, maior participação nas atividades escolares e um sentimento de pertença, contribuindo para percursos educativos mais estáveis e positivos.

A redução da taxa de abandono escolar precoce entre estudantes com deficiência, de 21 % para 10 %, representa um avanço significativo na inclusão educativa. Permanecer na escola aumenta as qualificações, melhora as perspetivas de emprego e reduz o risco de exclusão social e económica. Ao mesmo tempo, o alinhamento das plataformas digitais e dos portais académicos com princípios de acessibilidade e literacia em tecnologias de apoio assegura que os alunos possam aceder a conteúdos, avaliações e recursos formativos de forma autónoma, reforçando competências digitais essenciais para a vida académica e profissional.

A inclusão de módulos obrigatórios sobre inclusão e deficiência na formação inicial e contínua de professores e de outros profissionais da educação melhora a capacidade de resposta das escolas à diversidade. Docentes mais preparados conseguem identificar necessidades específicas, aplicar metodologias inclusivas e criar ambientes de aprendizagem mais equitativos. Esta mudança cultural no sistema educativo reduz barreiras, combate preconceitos e promove expectativas mais elevadas em relação ao potencial dos alunos com deficiência.

Por fim, a implementação de planos individuais de transição antes da conclusão da escolaridade obrigatória apoia os alunos na preparação para o ensino superior, formação profissional ou mercado de trabalho, tornando a passagem para a vida adulta mais estruturada e segura.

A aplicação dos princípios de Desenho Universal da Aprendizagem e a garantia de plataformas digitais acessíveis no ensino superior asseguram que estudantes com deficiência possam participar plenamente na vida académica, desenvolver autonomia e alcançar qualificações que ampliam oportunidades de emprego, independência financeira e realização pessoal.

Vagas para os concursos interno e externo de seleção e de recrutamento de pessoal docente para o ano escolar de 2026-2027

Foi publicada a Portaria n.º 136-B/2026/1, de 31 de março, que fixa a dotação das vagas dos quadros dos agrupamentos de escolas, das escolas não agrupadas e dos quadros de zona pedagógica para os concursos interno e externo de seleção e de recrutamento de pessoal docente, para o ano escolar de 2026-2027.

Aprendizagens Essenciais em consulta pública até final de abril

Através de um documento enviado na sexta-feira às escolas, e hoje divulgado pelo Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI), o Governo deu conta de que a consulta pública se iniciou na sexta-feira e que se vai prolongar até 28 de abril.

O Governo qualificou esta iniciativa como uma "etapa de aperfeiçoamento e validação", que "pretende recolher contributos da comunidade educativa, de especialistas e da sociedade em geral, com o objetivo de reforçar a qualidade da revisão curricular", com participações de professores, escolas, universidades e politécnicos, e "outros atores com conhecimento relevante" sobre a matéria.

"Os contributos recebidos serão alvo de análise, pelo EduQA [Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação], com vista à sua integração nos documentos curriculares. Ao longo deste período, serão também auscultados peritos, de forma a reforçar a consistência técnica e científica do trabalho desenvolvido", referiu o MECI.

O ministério tutelado por Fernando Alexandre recordou que a revisão das AE se insere "numa reforma mais ampla do currículo, que inclui a atualização dos conteúdos curriculares, a revisão da matriz curricular, a inserção da dimensão digital e de Inteligência Artificial de forma transversal nas aprendizagens, e a reorganização do ensino básico".

Estes serão os aspetos a ser trabalhados em seguida e o objetivo é que as alterações entrem gradualmente em vigor a partir do ano letivo de 2027/2028.

Ainda em janeiro, o ministro Fernando Alexandre tinha anunciado que durante o primeiro trimestre entraria em consulta pública a revisão das AE.

O processo de revisão das AE estava em curso desde 2025 e, em julho, o Governo concluiu a revisão dos documentos orientadores para os 1.º, 3.º, 5.º, 7.º e 10.º anos de escolaridade.

Numa segunda fase, durante o primeiro trimestre de 2026, seriam submetidas a consulta pública as AE dos restantes, mas o executivo vai afinal levar a debate os conteúdos lecionados em todos os anos de escolaridade, após decidir alargar o processo à matriz curricular, tendo em conta temas relacionados com a digitalização e a inteligência artificial, face ao momento "de grande alteração tecnológica" que se vive, explicou o ministro em janeiro.

Fonte: RTP por indicação de Livresco

segunda-feira, 30 de março de 2026

Alunos com cegueira estão a ser deixados para trás nas escolas

As escolas falam em retrocesso e violação do direito à educação das crianças.

Os alunos cegos e com baixa visão estão a ser prejudicados pela falta de professores especializados nas escolas públicas e também atrasos nos manuais escolares e materiais adaptados.

Fonte: RTP com reportagem em vídeo, por indicação de Livresco

NORMA 02/JNE/2026 – Instruções para a realização das Provas e Exames dos Ensinos Básico e Secundário

 




sexta-feira, 27 de março de 2026

A natureza como sala de aula no ensino da botânica

O declínio em espiral da nossa biodiversidade exige que no ensino atual a escola saia das suas paredes e tenha na natureza uma “sala de aula”, na qual as aprendizagens sobre o nosso património natural sejam significativas para a geração jovem, à qual caberá cuidar dele no futuro. A educação na natureza tem relevância atual devido ao fenómeno de “défice de natureza” que afeta a geração jovem, que sabemos estar cada vez mais agarrada a um mundo virtual, presa a ecrãs digitais.

Enquanto isto se passa, o mundo natural está a desaparecer aos poucos, como nos refere David Attenborough, num dos seus livros recentes. A este aviso, David Attenborough alia um convite para se agir em prol da biodiversidade, como o projeto “Emc – Explorar Matos de Camarinha da Costa” tem vindo a fazer sobre a planta da camarinha, pois só se protege o que se conhece. Em plena Década das Nações Unidas para a Recuperação dos Ecossistemas (2021-2030) é desejável que tomemos consciência de que esta é a hora de se agir em prol da biodiversidade, com projetos educativos nos quais a “natureza seja uma excelente sala de aula”.

Este é o lema do projeto Emc2, iniciado em 2016, para dar a conhecer a camarinheira – Corema album, também conhecida por “camarinha”, cujas plantas femininas dão as camarinhas, frutos comestíveis, de cor branca ou rosada. Esta planta, que só existe em Portugal (Continente e algumas ilhas açorianas) e em Espanha, é um endemismo ibérico.

Nos Açores tem estatuto de proteção, mas no Continente é apenas citada como uma espécie ameaçada e de elevado valor de conservação, pelo que a sua divulgação e proteção é um desafio educativo crucial, dada a regressão da sua área de distribuição. As ações do projeto baseiam-se numa ligação à natureza que cria nos alunos um sentimento de lugar e um envolvimento emocional que são parte essencial de aprendizagens significativas.

O projeto Emc2 tem sido desenvolvido com escolas de Caminha, Torres Vedras, Oeiras, Sines, Sagres e Almancil, e a sua metodologia inclui três atividades: visita de estudo; botânica e arte; e conservação.

As “visitas de estudo” complementam o ensino em sala de aula e os professores referem como insubstituível o seu poder emotivo e motivador. Na atividade “botânica e arte”, os jovens desenham na escola as plantas que viram. Esta ficha tem uma imagem de espécime de herbário de camarinha, colhido no local visitado, numa abordagem de “educação baseada no lugar”, pedagogia com potencial de criar nos jovens um “sentimento de lugar”.

A “atividade de conservação” decorre desde 2017, em Caminha, para a população de camarinhas que estava em declínio, por propagação de plantas por estacaria (com apoio do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, de escolas de Caminha, da associação Corema, do viveiro Raiz da Terra e órgãos autárquicos locais). A primeira reintrodução de plantas na Mata do Camarido, em 2018, foi divulgada a nível internacional no portal Panorama Solutions.

A mais recente propagação de plantas ocorreu no viveiro Raiz da Terra e estufas do município de Caminha, com a reintrodução, em outubro de 2025, de 4330 camarinhas na Mata do Camarido.

No âmbito do projeto, foi publicado em 2025 o livro Reflexões sobre o ensino da Botânica no Ensino Básico com base no Projeto Emc – Explorar Matos de Camarinha da Costa. O projeto tem permitido melhorar o grau de conhecimento dos jovens sobre a camarinha que é desconhecida para a grande maioria dos alunos (75% a 95%). O entusiasmo dos jovens participantes no projeto é evidente quer nas visitas de exploração da natureza como nas exposições dos seus desenhos (abertas ao público em geral).

O projeto é a prova viva de que na natureza são favorecidas aprendizagens significativas em que o poder emotivo e motivador das visitas convida os alunos para uma ação concreta.

A 21 de março celebram-se o Dia Internacional das Florestas e Dia Mundial da Árvore como um convite à reflexão sobre a importância das árvores e florestas na nossa vida e para todos os seres vivos, pois sem elas não haveria vida na Terra. Para que a sua importância não desvaneça, esta reflexão deve desafiar-nos a inovar o atual ensino sobre botânica nas nossas escolas, pois diversos autores alertam para um decréscimo no conhecimento sobre plantas e a extinção da educação sobre botânica, com repercussões negativas para a biodiversidade.

Há que capacitar os jovens a agir em prol da biodiversidade em projetos baseados na ação, esperança e cooperação. Como exemplo de cooperação o projeto Emc tem como embaixadores da biodiversidade (área do desporto) dois windsurfistas: Margarida Gil Morais e João Rodrigues, que darão um contributo para divulgar a importância da conservação das zonas costeiras, que possui plantas endémicas como a camarinha.

O futuro do ensino da botânica beneficiará com aprendizagens na natureza, que favoreçam colaborações com organizações da sociedade civil, para desenvolver um sentido de responsabilidade coletiva na defesa da biodiversidade. No ensino, as escolas devem promover um maior contato dos alunos com a natureza circundante, para permitir despertar neles uma paixão pelos valores naturais, para depois melhor os conhecerem e protegerem.

Alexandra Abreu Lima

Fonte: Público por indicação de Livresco

Igualdade em casa avança, mas cuidados com filhos continuam desiguais

Apesar do amplo apoio público à igualdade de género, tanto no trabalho remunerado como no cuidado dos filhos, as responsabilidades familiares continuam, muitas vezes, a ser distribuídas segundo padrões tradicionais. Um estudo da Universidade de Aveiro (UA) analisou de que forma as tarefas domésticas e parentais são divididas em casais que partilham responsabilidades de forma igualitária, comparando-os com casais que seguem modelos “semitradicionais”.

“A nossa investigação ajuda a compreender como os casais que partilham responsabilidades de forma igualitária organizam o trabalho familiar e de que forma a segregação tradicional de papéis de género continua a manifestar-se, bem como o potencial que existe para aumentar a igualdade de género no contexto doméstico”, explica Mariana Pinho, investigadora do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da UA.

O estudo, assinado também pelas investigadoras Inês Lourenço e Marisa Lousada, da Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro, envolveu 154 pais com filhos entre o nascimento e os quatro anos, que responderam a questionários detalhados sobre a organização das tarefas domésticas e dos cuidados com as crianças.

Os resultados mostram que as mães em divisões semitradicionais continuam a realizar significativamente mais trabalho doméstico e cuidados infantis do que as mães em casais que partilham responsabilidades de forma igualitária. Por outro lado, os pais em casais igualitários participam muito mais nas tarefas domésticas e no cuidado dos filhos do que os pais em divisões semitradicionais.

Nos casais que dividem as responsabilidades de forma equilibrada, verificou-se um nível semelhante de envolvimento de mães e pais nas tarefas domésticas e nos cuidados com os filhos. “Estes níveis comparáveis de envolvimento evidenciam como alguns casais estão, na prática, a ‘desfazer o género’, isto é, a desafiar as expectativas tradicionais associadas aos papéis de homens e mulheres”, sublinha Mariana Pinho.

Ainda assim, a investigação mostra que a responsabilidade pelos cuidados com as crianças continua a ser um dos aspetos mais resistentes à mudança. “Os resultados indicam que a responsabilidade ou gestão dos cuidados infantis permanece uma das dimensões mais difíceis de alterar, mesmo quando os papéis familiares são distribuídos de forma mais igualitária”, refere a investigadora.

Para Mariana Pinho, estes resultados reforçam a importância de aprofundar o conhecimento sobre as dinâmicas familiares que procuram afastar-se dos modelos tradicionais. “As conclusões contribuem para o crescente conjunto de evidências sobre a importância de compreender como o trabalho familiar é distribuído entre casais que desafiam as normas de género e qual o papel que as características sociopsicológicas podem desempenhar nesse processo”, afirma.

O estudo contribui, assim, para aprofundar o conhecimento sobre a forma como as normas de género são simultaneamente contestadas e reproduzidas no seio das famílias, bem como sobre os fatores que podem favorecer uma divisão mais equitativa do trabalho doméstico e dos cuidados parentais.

Fonte: Recebido por correio eletrónico

quinta-feira, 26 de março de 2026

Para um currículo dos primeiros seis anos de escolaridade

Já está publicado o Estudo do CNE, intitulado Para um currículo dos primeiros seis anos de escolaridade. O Estudo integra-se no âmbito dos trabalhos desenvolvidos pela 1.ª Comissão Especializada Permanente, dedicada ao Currículo, e serve de base à Recomendação deste Conselho sobre a temática.

Enquadrado numa metodologia de recolha de informação triangulada, assenta em três eixos principais. Começa pelos fundamentos históricos, que partem da Reforma de Costa Cabral, em 1844, por ter então instituído a escolaridade obrigatória a todas as crianças dos 7 aos 15 anos de idade. O estudo faz, sinteticamente, todo o percurso até ao pensamento de peritos da atualidade, analisando as oscilações do pensamento educativo português, relativo aos primeiros seis anos de escolaridade, incluindo as posições do CNE ao longo das últimas duas décadas.

Reflete também sobre a necessidade de o Currículo atender às especificidades cognitivas e socioemocionais da designada Terceira Infância. A base de análise estende-se ao panorama internacional, através de um estudo comparativo da organização educativa de 13 países enquadrado pela Classificação Internacional Tipo da Educação (ISCED 1) da UNESCO. Por fim, a opinião abalizada de 15 peritos (nacionais e estrangeiros), recolhida em sede de audições, reforça a consistência da revisitação temática.

Aqui poderá encontrar argumentos fundamentados a favor de um ciclo único para os primeiros seis anos de escolaridade. Defende-se a passagem de uma monodocência coadjuvada para uma pluridocência coordenada, que se deve fazer paulatina e progressivamente, sob a responsabilidade de uma equipa pedagógica estável e colaborativa. Tudo isto com o recurso a metodologias ativas e inovadoras, em prol do desenvolvimento integral e da autonomia da criança. O estudo refere ainda que esta ambição curricular exige três motores de mudança: a consolidação de uma avaliação de cariz formativo, a revisão da gestão de recursos humanos e a adequação da formação docente.


Fonte: EduProfs

quarta-feira, 25 de março de 2026

Implementação de uma gestão superior a 25 % das matrizes curriculares-base das ofertas educativas e formativas dos ensinos básico e secundário, com vista ao desenvolvimento de planos de inovação

Portaria n.º 127/2026/1, de 25 de março, procede à segunda alteração da Portaria n.º 181/2019, de 11 de junho, que define os termos e as condições em que as escolas, no âmbito da autonomia e flexibilidade curricular, podem implementar uma gestão superior a 25 % das matrizes curriculares-base das ofertas educativas e formativas dos ensinos básico e secundário, clarificando as competências do Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação, I. P. (EduQA, I. P.), no âmbito dos planos de inovação.

terça-feira, 24 de março de 2026

Brochura Aprender a Escrever - Desenvolver competências de escrita: educação pré-escolar e 1.º ciclo do ensino básico

 



O Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação, I.P. (EduQA, I.P.) realizou, no dia 19 de março de 2026, um Webinar de apresentação da brochura Aprender a Escrever – Desenvolver competências de escrita: educação pré-escolar e 1.º ciclo do ensino básico.

O documento, em formato digital, encontra-se disponível para consulta e descarregamento.

Fonte: DGE por indicação de Livresco

segunda-feira, 23 de março de 2026

Ler é compreender: como desenvolver a compreensão leitora?

Quando pensamos na aprendizagem da leitura imaginamos, muitas vezes, uma criança a juntar letras para formar palavras. No entanto, ler bem é muito mais do que decifrar palavras. Na verdade, o verdadeiro objetivo da leitura é compreender o que se lê, ou seja, perceber o significado das frases, ligar ideias e construir sentido a partir de um texto.Quando os mais novos leem, para além de identificarem palavras têm de compreender o seu significado. É por isso que a compreensão leitora é considerada uma das competências mais importantes para o sucesso escolar. E o mais interessante é que a compreensão começa a desenvolver-se muito antes do 1.º ano de escolaridade e antes de a criança aprender a ler sozinha.

A compreensão leitora começa a formar-se através da linguagem oral e do conhecimento que o indivíduo vai adquirindo sobre omundo. As conversas com os adultos, as histórias ouvidas e as experiências vividas ajudam a construir a base que permitirá à criançacompreender os textos no futuro.

Durante muitos anos, o ensino da leitura centrou-se, sobretudo, em estratégias de compreensão, como encontrar a ideia principal deum texto ou fazer inferências. Estas competências são importantes, mas a investigação tem mostrado que há dois fatores ainda maisdeterminantes: o vocabulário e o conhecimento prévio. Ao ouvir muitas palavras, participar em conversas e aprender sobre diferentestemas, os mais novos estão a desenvolver ferramentas que mais tarde lhes permitirão entender melhor aquilo que leem.

Quando uma criança conhece muitas palavras e já tem algum conhecimento sobre um determinado tema, torna-se muito mais fácilcompreender um texto sobre esse assunto. O cérebro consegue relacionar a informação nova com aquilo que já sabe facilitando ainterpretação e a aprendizagem.

Uma criança ao encontrar uma palavra desconhecida, mas que está relacionada com um tema que conhece tem grande probabilidadede conseguir perceber o seu signifi cado, porque consegue ligá-las ao conhecimento que já possui. Por isso, quanto mais conhecimentoe vocabulário acumular, maior será a sua capacidade de compreender textos.

A escola tem um papel fundamental no desenvolvimento da compreensão leitora. Uma das estratégias que se aplica regularmente emcontexto escolar e que é efi caz para desenvolver a compreensão leitora é a leitura em voz alta acompanhada de conversa sobre otexto.

Quando os professores leem histórias e fazem pausas para explicar ideias importantes, introduzir novas palavras ou fazer perguntas,estão a ajudar a aprofundar a compreensão. Falar sobre o texto antes, durante e depois da leitura, ajuda as crianças a organizar ideias,a refletir sobre o que ouviram e a estabelecer ligações entre os diferentes conhecimentos.

A exposição repetida a novas palavras, em diferentes contextos, permite às crianças criar ligações entre conceitos. Com o tempo,estas ligações formam redes de conhecimento que facilitam a compreensão. Quanto mais conhecimento um indivíduo tem sobrediferentes temas, mais fácil se torna compreender novos textos. Isto acontece porque a compreensão da leitura depende muito dacapacidade de relacionar a informação nova com os conhecimentos já existentes.

Os pais, também, desempenham um papel essencial no desenvolvimento da compreensão leitora e, muitas vezes, através de gestossimples do dia a dia. Conversar com os fi lhos, ouvir o que têm para dizer e incentivá-los a explicar melhor as suas ideias ajuda adesenvolver a linguagem e o pensamento.

Ler em voz alta para os fi lhos continua a ser extremamente importante, mesmo depois de já saberem ler. Quando há conversa sobre ahistória ouvida, a leitura torna-se uma oportunidade de aprofundar a compreensão. Se a criança dá a sua opinião sobre uma históriadesenvolve o vocabulário, o pensamento crítico e a capacidade de expressão.

A investigação mostra que é possível desenvolver, simultaneamente, a linguagem oral, o vocabulário e o conhecimento desde cedo.Quando esse trabalho é feito de forma consistente, as crianças podem aprender milhares de novas palavras e construir redes deconhecimento que serão fundamentais para compreender textos ao longo de toda a vida escolar.

Para algumas crianças, especialmente aquelas que começam a escola com menos vocabulário ou menos experiências linguísticas,pode ser necessário um apoio mais continuado. No entanto, quando existem oportunidades ricas de linguagem e aprendizagem,todas podem desenvolver as competências necessárias para compreender bem aquilo que leem.

A compreensão leitora não surge de um momento para o outro. Constrói-se ao longo do tempo, através de palavras, conversas,experiências e conhecimento acumulado. Quando os adultos falam, leem, escutam e exploram o mundo com as crianças estão a fazermuito mais do que proporcionar momentos agradáveis: estão a ajudá-las a desenvolver a capacidade de compreender textos eaprender com eles.

Inês Ferraz

Fonte: Públco por indicação de Livresco

sábado, 21 de março de 2026

O que explica um bom desempenho a matemática? Três capacidades que contam (e uma que importa sobretudo no início)

Tonje Amland e seus colegas da Universidade de Oslo realizaram uma meta-análise, publicada em 2024 no artigo «Cognitive factors underlying mathematical skills: A systematic review and meta-analysis». Esta revisão sistemática de mais de quatro centenas de estudos internacionais mostra que há três capacidades cognitivas fundamentais durante todo o percurso escolar, e uma quarta particularmente importante nas fases iniciais.

É fundamental compreender os números e os seus símbolos

O conhecimento simbólico dos números (a habilidade de reconhecer dígitos, comparar números e identificar a ordem correta) surge como o preditor mais forte do desempenho matemático em estudos transversais e longitudinais. Assim, crianças com bons conhecimentos simbólicos sobre os números terão melhores desempenhos em praticamente todos os domínios da matemática.

Esta habilidade permite trabalhar números de forma abstrata, requisito essencial desde o início, que se mantém forte preditor ao longo da escolaridade. Quanto mais cedo esta habilidade for promovida, melhores serão os resultados. Por exemplo, crianças que desde a pré-escola aprendam a associar corretamente os números às suas quantidades, saibam que 6 é maior que 4 e reconheçam padrões numéricos simples, como sequências que se repetem ou crescem regularmente (por exemplo, 2, 4, 2, 4; 2, 4, 6, 8) tendem a ter bom desempenho matemático no primeiro ciclo. Estas habilidades estão na base da aprendizagem do cálculo, da compreensão de equações e da resolução de problemas mais complexos nos ciclos seguintes.

A meta-análise sugere ainda que tais habilidades são particularmente preditivas em contextos educacionais que exigem raciocínio abstrato precoce. Nesses casos, o conhecimento simbólico dos números prevê, inclusive, o sucesso em exames padronizados de avaliação curricular.

A linguagem ajuda (sobretudo nos problemas)

A linguagem é um dos pilares da aprendizagem escolar. As habilidades fonológicas, tais como a consciência dos sons da fala, parecem ter um papel específico. Os estudos mostram que são preditoras do desempenho em aritmética quando avaliadas em simultâneo, embora não sejam preditoras do desempenho futuro. Uma possível explicação é, nas fases iniciais, a aritmética depender parcialmente de um código fonológico, através do qual os factos numéricos (por exemplo, as tabuadas) são armazenados como representações fonológicas na memória. Esta influência, embora importante, parece ser mais passageira, perdendo impacto com o tempo. Em contraste, a compreensão verbal revela-se particularmente importante para resolver problemas que exigem interpretar o que está escrito para saber o que é pedido e selecionar a estratégia adequada. A meta-análise mostra que a linguagem não está só relacionada com o desempenho matemático geral, também é especialmente relevante nos problemas com enunciado.

Isto acontece porque, para resolver um problema matemático em formato escrito, a criança precisa de compreender o enunciado, identificar as relações entre os dados, selecionar os passos certos e manter coerência ao longo da resolução. Todas estas operações envolvem habilidades linguísticas. Contudo, a sua importância varia com a escolaridade. Em crianças da pré-escola e do primeiro ciclo, a linguagem não se destaca tanto como o conhecimento simbólico, mas, a partir do segundo ciclo, torna-se um dos principais fatores associados ao sucesso matemático, sobretudo em tarefas complexas, tais como problemas aplicados, representação de relações ou modelação de situações matemáticas do quotidiano.

Os estudos incluídos nesta revisão mostram também que a linguagem influencia a compreensão dos conceitos matemáticos mais abstratos, como proporções, frações e equações, uma vez que exigem a capacidade de compreender e utilizar corretamente símbolos matemáticos e representações formais e vocabulário matemático mais sofisticado.

Capacidades espaciais e não-verbais contam (e muito)

As capacidades espaciais incluem a visualização de relações, a manipulação mental de objetos e a representação da informação de forma visual. Estão fortemente associadas a domínios como a geometria, a visualização de padrões e a resolução de problemas complexos. A sua influência aumenta conforme as tarefas matemáticas se tornam mais exigentes em abstração e representação simbólica. Por exemplo, uma boa capacidade de rotação mental e de manipulação visual de objetos pode ajudar a compreender transformações geométricas ou relações espaciais entre figuras. Estas competências não são relevantes apenas para a geometria, mas também para compreender funções e representações gráficas.

Paralelamente, o raciocínio não-verbal é outro dos preditores mais consistentes do desempenho matemático, em especial nas fases intermédias e mais avançadas da escolaridade. É fundamental, por exemplo, para reconhecer padrões, formular hipóteses, testar alternativas e justificar raciocínios.

Segundo a meta-análise, esta forma de inteligência está particularmente ligada ao sucesso em contextos de aprendizagem mais abertos ou na resolução de problemas não-rotineiros, sublinhando a importância de ambientes de aprendizagem ativos e desafiantes.

Sentido intuitivo de quantidade: no início importante, com impacto limitado depois

A quarta capacidade identificada na meta-análise diz respeito a um aspeto específico da cognição numérica: o sentido intuitivo da quantidade.

Nos anos iniciais, a capacidade intuitiva de estimar e comparar quantidades sem contar (o sistema numérico aproximado) pode facilitar a aprendizagem inicial da matemática. Este sentido intuitivo do número está presente logo nos primeiros meses de vida, muito antes de se aprender a contar. Envolve a capacidade de perceber e comparar quantidades de forma imediata, sem contagem. Trata-se de uma capacidade que permite, por exemplo, reconhecer que um conjunto de oito objetos é maior do que outro com cinco, apenas num olhar rápido. Embora pouco preciso, é funcional nos primeiros anos e estabelece as bases de aprendizagem de conceitos mais formais.

Este resultado da meta-análise confirma o que já evidenciámos noutro artigo: a compreensão dos números em termos não simbólicos e a capacidade de estimar quantidades ainda sem recorrer a símbolos formais são passos essenciais no início do percurso de aprendizagem. Estas capacidades intuitivas servem de ponte ao desenvolvimento posterior do conhecimento simbólico. No entanto, os dados indicam que a influência do sentido do número tende a diminuir conforme as crianças avançam na escolaridade, dando lugar a preditores mais fortes como os já referidos anteriormente.

E a memória?

A memória de trabalho é uma capacidade geral que também influencia naturalmente o desempenho matemático. Contudo, os resultados mostram uma influência menos consistente do que a dos preditores anteriores.

Nos primeiros anos, a memória visuoespacial tem um papel maior, ajudando, por exemplo, a manter imagens mentais ou sequências de passos, como nas tarefas de geometria ou estimativas com material concreto. Mais tarde, a memória de trabalho verbal passa a ser mais relevante, especialmente para cálculo mental, resolução de problemas, tarefas aritméticas e memorização de procedimentos.

O que se pode fazer?
  • Promover o sentido não-simbólico do número desde o pré-escolar com atividades que envolvam discriminação e comparação de quantidades sem contar (como jogos de estimativa ou subitizing, em que a criança reconhece pequenas quantidades num olhar rápido). Estas atividades fortalecem o sistema numérico aproximado;
  • Em paralelo, treinar o conhecimento simbólico dos números com atividades de contagem verbal, identificação de dígitos, comparação numérica explícita e associação de um número a uma quantidade, facilitando a transição para representações mais abstratas. O uso de material manipulável como cartões com números, cubos de contagem ou jogos de pares numéricos pode ajudar nesta aprendizagem;
  • Promover o uso de estratégias de leitura e compreensão de textos para resolver problemas matemáticos, sobretudo a partir de meados do primeiro ciclo;
  • Incentivar a crianças a usar jogos e atividades que envolvam capacidades espaciais, como construções com blocos, puzzles ou rotação mental de figuras;
  • Valorizar atividades que desenvolvam a capacidade de resolução de problemas novos, incentivando o raciocínio lógico;
  • Estimular a memória de trabalho, por exemplo, em jogos que exigem manter e manipular informação, como jogos de sequências e desafios lógicos.
Luís QueridoSandra Fernandes