sexta-feira, 6 de abril de 2018

Flexibilidade curricular vai ser alargada a todas as escolas

A partir do próximo ano letivo, todas as escolas poderão aderir ao projeto de flexibilidade curricular, que por agora tem estado a ser aplicado, em regime de projeto-piloto, em 225 estabelecimentos de ensino. A generalização deste regime a todas as escolas, embora com caráter facultativo, foi aprovada nesta quinta-feira em Conselho de Ministros.

"Alarga-se assim à escola pública uma ferramenta de trabalho que até aqui estava garantida apenas às escolas privadas", frisou o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues. Em declarações aos jornalistas no final da reunião do Governo, o ministro considerou também que este modelo "é um importante instrumento de trabalho, de equidade e de promoção do sucesso escolar".

As escolas que aderirem ao projeto vão começar por aplicá-lo nos anos iniciais de cada ciclo de escolaridade (5.º, 7.º e 10.º anos). O diploma aprovado define os princípios de organização do currículo do ensino básico e secundário e, segundo o Governo, seguirá agora para consulta pública.

Nele também se estabelecem novas regras para o acesso ao ensino superior dos alunos oriundos dos cursos profissionais e do ensino artístico especializado: passam a fazer só um exame nacional, que contará apenas como prova de ingresso na universidade ou politécnico e, por isso, o resultado dessa prova deixará de ser tido em conta no cálculo da média final do ensino secundário.

O Ministério da Educação tinha feito depender a decisão de generalizar o projeto da flexibilidade curricular da avaliação que fosse feita à sua aplicação pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). A primeira avaliação intercalar foi conhecida no final de Fevereiro, com o diretor da Educação da OCDE, Andreas Schleicher, a manifestar-se “muito impressionado” com as mudanças que encontrou nas escolas abrangidas pelo projeto. E a anunciar que uma das recomendações da OCDE era, precisamente, a de que Governo cumprisse a promessa de no ano letivo de 2018/2019 alargar a todas as escolas este projeto, embora mantendo o seu caráter voluntário. Objetivo: assegurar “equidade e um acesso igual a todos os estudantes”. (Continuação da notícia)

Fonte: Público

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Desafios para uma Escola Inclusiva: ​À conversa com...

A pro-Inclusão, Associação Nacional de Docentes de Educação especial vai realizar várias ações de curta duração (ACD) sob a égide dos "Desafios para uma Escola Inclusiva: à conversa com...". As ACD acontecem às terças feiras, no Instituto Piaget, em Almada, entre as ​17h00 e as 20h00, de acordo com o seguinte programa:
17 de abril
A1 - O Perfil e as competências do docente de Educação Especial num contexto de Educação Inclusiva - David Rodrigues

8 de maioA2 - Dificuldades de Aprendizagem: Intervenção Pedagógica - Vítor Cruz

15 de maioA3 - ​Sexualidade - Como intervir? - Patrícia Valle

22 de maioA4 - Metodologias de Intervenção Colaborativas - Luzia Lima-Rodrigues

29 de maioA5 - Contar histórias- Uma Estratégia Pedagógica - Elvira Silva

5 de junho
A6 - Metodologia de Projeto: Aprender a Aprender - Rute Pais

As ACD são uma das quatro modalidades previstas no Regime Jurídico da Formação Contínua de Professores(RJFCP), Decreto-Lei n.º 22/2014 (clicar para aceder), sendo reconhecida e certificada nos termos do Despacho n.º 5741/2015 (clicar para aceder), alterado pela Declaração de Retificação n.º 470/2015 (clicar para aceder), de 11 de junho. Contrariamente às restantes modalidades, o reconhecimento de uma ACD é feito a posteriori, através de um processo de reconhecimento e certificação nos termos da legislação referida.

Para mais informações consultar a página da associação (https://cfpinandee.weebly.com/programa_acd.html).

Há demasiados alunos órfãos de pais vivos

Professor: Estou?

Encarregado de Educação: Sim…

Professor: Boa tarde, fala o professor Alexandre Henriques, é possível falarmos um bocadinho sobre o seu filho? É que ele tem tido uns problemas disciplinares e tem faltado a algumas aulas…

Encarregado de Educação: Mas o professor não sabe que eu estou no meu local de trabalho? Acha pertinente incomodar-me no meu local de trabalho?

Professor: Eu estou a ligar para o número que a senhora deixou na escola e deve calcular que é impossível eu saber quando a senhora está disponível ou não…

Como devem imaginar, a conversa “azedou” um bocadinho e aquilo que tinha demorado três ou quatro minutos demorou mais de cinco sem nunca falarmos sobre o motivo do telefonema. A partir desse momento, todas as comunicações passaram a ser via postal, perdendo-se algo fundamental para o sucesso do aluno: a ligação entre o director de turma e o encarregado de educação.

O que me aconteceu é apenas um exemplo das mais incríveis situações que possam imaginar, desde os pais dizerem que não sabem o que fazer aos filhos, que só esperam que eles façam 18 anos, a não atenderem o telefone, tudo acontece na comunicação com alguns pais.

Não é por isso de estranhar que os professores apontem o dedo aos encarregados de educação, num inquérito realizado e que foi divulgado no PÚBLICO – cerca de 80% dos 2348 inquiridos refere como principal causa para a redução da indisciplina escolar uma maior responsabilização dos encarregados de educação.

Não vamos ignorar o que acontece frequentemente, as relações entre professores e pais são muitas vezes difíceis e demasiadas vezes inexistentes. Nas escolas, sempre que se fala em indisciplina, aponta-se o dedo aos pais e os pais, sempre que surge um problema, apontam o dedo à escola. Esta costuma ser a norma, esquecendo, as partes equacionadas até agora, que o principal visado também tem uma palavra a dizer, aliás, a última e principal palavra. Todos nós conhecemos casos de crianças/jovens de sucesso que tiveram infâncias difíceis, chamo-lhes os heróis silenciosos, pois é isso que eles são, pequenos grandes heróis, que apesar de toda a adversidade, conseguiram atingir o impensável. Não é fácil ter sucesso quando não se quer voltar para casa, não é fácil ter sucesso quando a escola é um local inóspito, de incompreensão e onde o ensino está formatado para as massas e não para o indivíduo.

É verdade que cada vez mais existem órfãos de pais vivos, os professores conhecem bem os casos de negligência e abandono parental, conhecem bem a desculpabilização excessiva em que o filho nunca é responsável e é sempre a vítima. Não é admissível que os pais não compareçam quando a escola os chama duas, três, cinco vezes… não é admissível que mintam nas justificações de faltas que entregam aos directores de turma, não é admissível que apontem o dedo sem se olharem ao espelho.

A escola, os professores, também precisa de melhorar algumas abordagens. O professor não pode ser apenas o mensageiro da desgraça, o professor também deve contactar os pais para elogiar a evolução, a mudança de atitude. Já sei que os professores vão dizer que não têm tempo e infelizmente é a mais pura das verdades, mas, para certos casos, mais vale “perder” cinco minutos e recuperar a confiança da família na escola, recuperando, ao mesmo tempo, a própria relação familiar. Sim, o professor também tem esse poder…

Lembro-me de uma colega que partilhou comigo a experiência dos seus alunos terem feito uma apresentação numa reunião com os pais. Em situações normais, tal seria restrito à turma, era a sua avaliação… mas, por que não com os pais? Que melhor forma de verem o trabalho que os seus filhos fazem e ligarem-se à escola através de algo positivo.

Existem excelentes pais e os professores reconhecem isso, provavelmente os pais que lerem estas linhas fazem parte desse grupo e não devem, por isso, sentir como suas as acusações que aqui são feitas. Faço um mea culpa e digo que a escola devia apoiar mais os seus filhos, pois a verdade é que a escola não gasta um terço da sua energia em tornar um aluno mediano num bom aluno ou um bom aluno num aluno excelente. O foco está sempre no pior e não é justo, não é justo para os bons alunos, não é justo para os bons pais.

Para os casos problemáticos é preciso uma maior responsabilização dos encarregados de educação, o desafio está no aluno, mas o desafio maior está na família, está na própria sociedade. Os pais precisam de assumir na plenitude o título que carregam – são encarregados de educação, é essa a sua prioridade, é essa a sua função!

Quanto aos professores, compreendo a frustração e revolta de se sentirem com o “menino nas mãos”, de se sentirem impotentes por verem, do outro lado, o que nunca devia acontecer. Cabe-lhes manter a perseverança e acreditar que é possível mudar erros passados, estabelecer pontes que potenciem o sucesso dos seus alunos e continuarem a ser aquilo que hoje são, muito mais do que professores…

Alexandre Henriques

Professor, pai e autor do Blogue ComRegras

Fonte: Público por indicação de Livresco

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Não deixar alunos para trás?

Em 2001 foi aprovada pelo Congresso dos Estados Unidos uma lei designada por “No Child Left Behind” que se poderia traduzir em português por: “Não deixar nenhum aluno para trás.” Não cabe aqui evocar as muitas avaliações que foram feitas desta lei, mas sobretudo evocar o seu propósito maior de organizar o sistema educativo de forma a que pudesse servir – e bem – a qualquer e a todos os alunos. Basicamente, este programa procurou identificar um conjunto de conhecimentos e competências básicas que todos os alunos deveriam desenvolver ainda que eventualmente em graus diferentes.

Este propósito de organizar o sistema educativo de forma a servir todos e cada um dos alunos continua a ser – passados que são 17 anos da publicação desta lei – um objetivo ambicioso e um “estaleiro de obras”. Entende-se bem porquê: existem muitos alunos que não conseguem ter sucesso na escola e, por este motivo, reprovam ou abandonam precocemente a escola e a hipótese de a terminar com sucesso. Tem sido repetidamente demonstrado que a escola serve melhor uns alunos do que outros e não se encontra preparada para servir todos, para conduzir todos, sem que muitos sejam deixados para trás. Por este motivo, continua a ser muito radical e ambiciosa a meta que noutro contexto até poderia parecer óbvia e evidente: uma escola deve ensinar e educar todas as crianças que a ela recorrem. Ninguém ignora – professores, pais, comunidades, políticos – que o desenvolvimento da escola a afastou e afasta muito deste objetivo de educar todos os alunos. A forma unificada de transmissão de conteúdos resulta em benefícios para os alunos que aprendem da forma como a escola ensina e em prejuízo dos que precisariam de outras estratégias e metodologias para aprender. Por outro lado, a complexidade e a extensão dos programas leva a que muitos alunos não sejam capazes de acompanhar o galope implacável da cadência dos programas. E, se algum leitor tiver dúvidas sobre isto, passe algum tempo a ler os manuais que são feitos para os alunos do ensino básico e depois pense como é que uma criança de dez ou 13 anos pode entender e responder ao que é pedido.

Perante esta dificuldade da escola para ensinar programas complexos a populações muito diversas, procurou-se instituir nas escolas um sistema de apoio pedagógico. Este apoio procuraria compensar, recuperar os alunos que só por ação das aulas regulares não seriam capazes de atingir a fasquia – lá em cima – que o sistema instituiu; seria, assim, a forma de diminuir o fosso entre o desempenho dos alunos com mais dificuldades e os ambiciosos objetivos dos programas. Muitas expectativas se geraram sobre estes apoios: seriam eles certamente que poderiam fazer com que “nenhum aluno fosse deixado para trás”. Mas o certo é que estes apoios, se quiserem ser efetivamente úteis, têm de ser concebidos e organizados de forma bem diferente do que são feitos agora. Sinteticamente esta diferença poder-se-ia conceber em três pontos:

Em primeiro lugar, um apoio não deve ser uma pura extensão das aulas regulares. O apoio não é para voltar a dizer e a fazer exatamente o mesmo que se pede na aula regular. O apoio, pelo contrário, tem de explorar a sua potencialidade de personalizar a aprendizagem e identificar formas de aprender que devem que ser respondidas com diferentes estratégias de ensino. Conceber um apoio como “mais do mesmo” só serve, em muitas situações, para aumentar o tédio e a desmotivação para aprender. Depois, é importante que o apoio não seja um recurso que é acionado sem que tenham sido exploradas outras formas de o aluno aprender e estar incluído no ambiente de aprendizagem comum a todos os colegas. A primeira frente para combater o insucesso é a própria aula: o seu interesse, a motivação que implica, as estratégias que usa, os diferentes níveis de participação que implica, as diversas formas de trabalho que podem confluir para a aprendizagem de todos os alunos. Remeter alunos para o apoio sem esgotar todas as possibilidades que são exequíveis na sala de aula não contribui, por certo, para que todos os alunos possam aprender. Uma última questão sobre o apoio prende-se com o facto de todos os alunos precisarem de apoio. Muitos alunos usufruem de um apoio “invisível” (pais, centros de estudos, explicações) e outros têm um apoio “visível”, aquele que está no horário e é proporcionado pela escola. Todos os alunos podem precisar em algum momento da sua vida académica de apoios e isso é parte integrante do seu percurso.

Construir uma escola em que nenhum aluno seja deixado para trás é uma questão de Direitos Humanos. Ninguém ignora as dificuldades que se enfrentam para cumprir este desiderato: as escolas confrontam-se com dificuldades que muitas vezes – e no melhor da sua vontade e competência – não conseguem resolver. Por isso é tão importante insistir na relevância das condições de trabalho, na presença de recursos materiais e humanos, na centralidade do trabalho da escola na aprendizagem e na educação de todos os alunos.

Não deixar ninguém – mas ninguém mesmo – para trás é agora, como há 17 anos, um objetivo desafiante e que precisa de visão e apoios para se poder cumprir.

David Rodrigues

Presidente da Pró-Inclusão – Associação Nacional de Docentes de Educação Especial; Conselheiro Nacional de Educação

Fonte: Público

“Não acredito num comprimido mágico para a melhoria cognitiva que sirva para todos” Partilhar notícia Partilhar no Facebook Partilhar no Twitter Assine já

Acredita que a mente é o limite. O seu principal objetivo não é superar os outros, avisa, mas antes conseguir o melhor de si. Apresenta uma lista de “ingredientes” que diz serem capazes de melhorar o nosso desempenho cognitivo. A receita para ser mais criativo e tirar o maior proveito das nossas capacidades cognitivas inclui substâncias e ações. Desde o café, espinafres e chocolate à prática de exercício físico, meditação e estimulação cerebral. Lorenza Colzato “falou” (...) numa entrevista, por email, dias antes de chegar ao Porto, onde fará a conferência inaugural do 12º Simpósio da Fundação Bial com o tema “Potenciar a mente”, que começa esta quarta-feira e decorre até sexta-feira, no qual serão discutidos temas como a melhoria das funções cognitivas, a inteligência artificial ou a relação homem-máquina.

Publicou recentemente Theory-Driven Approaches to Cognitive Enhancement (“Abordagens Orientadas por Teoria para Melhoria Cognitiva”), que é também o título da conferência inaugural do simpósio que decorre no Porto. De que trata o livro?
Apresenta uma perspetiva do estado da arte sobre diferentes aspetos do melhoramento cognitivo. “A mente é o limite. Desde que a mente consiga perspetivar o facto de sermos capazes de fazer algo, conseguimos fazê-lo, desde que acreditemos nisso a 100%”, esta é uma citação que gosto de repetir para mim mesma antes de qualquer desafio (físico ou mental) para conseguir o meu melhor desempenho. Na investigação, na docência ou no desporto, o meu objetivo não é superar os outros, mas conseguir melhorar para o meu bem. Para mim, esta é a essência da potenciação cognitiva: o uso de qualquer (legítimo) meio (isto é, jogos de vídeo, estimulação cerebral, exercício físico ou suplementos alimentares) para chegarmos ao nosso melhor.

Estes procedimentos para a potenciação cognitiva têm efeitos diferentes em diferentes indivíduos? Num dos seus artigos refere que o efeito da tirosina (um aminoácido associado ao aumento do rendimento intelectual) na cognição pode depender dos nossos genes…
Há várias possibilidades. Por exemplo, podemos usar suplementos alimentares e/ou smart drugs (fármacos para melhorar o desempenho cognitivo) que atuam através de um aumento do nível de neurotransmissores específicos capazes de potenciar as funções cognitivas sobre as quais agem. Podemos usar métodos de estimulação cerebral não invasivos que atuam em determinadas regiões do cérebro. Ou podemos usar música, meditação ou jogos de vídeo. Há várias investigações sobre os potenciais benefícios cognitivos decorrentes de apreender a tocar instrumentos, usar jogos de vídeo, fazer uma atividade física e sessões de meditação.

Mas não acredito numa intervenção que serve para toda a gente. Nem acredito que as pessoas beneficiem mais ou menos da mesma forma. A eficácia das ações para potenciação cognitiva é frequentemente influenciada por diferenças individuais, incluindo fatores de desenvolvimento neuronal pré-existentes e diferenças de base genética. Desta forma, apenas os programas de potenciação cognitiva concebidos com base nas capacidades, habilidades e necessidades individuais têm probabilidades de sucesso.

Nos seus artigos, fala de vários alimentos que podem contribuir para uma melhoria cognitiva. Desde ovos e espinafres a produtos mais apetecíveis como chocolate e café. Quais são os mecanismos que justificam estes benefícios?
O chocolate preto é rico em GABA [ácido gama-aminobutírico, um neurotransmissor inibidor do sistema nervoso central]. Quando comemos chocolate, aumentamos ligeiramente os níveis de GABA. É muitas vezes chamado “agente natural calmante do cérebro” porque diminui a excitabilidade dos neurónios corticais. Isto explica por que é que as pessoas se sentem mais relaxadas depois de comerem chocolate preto. A cafeína tem o efeito oposto. É a droga com efeitos psicoestimulantes mais consumida no mundo. A cafeína não só nos ajuda a manter acordados como alguns estudos já mostraram que um consumo regular ao longo da vida nos poderá proteger contra a declínio cognitivo e mesmo reduzir a probabilidade de desenvolver a doença de Parkinson.

Com tantas substâncias com diferentes efeitos, será possível (ou desejável) juntar todos os possíveis benefícios dos alimentos num só comprimido?
Não. Somos todos diferentes. E é por isso que não acredito num comprimido mágico que sirva para todos. No entanto, acredito nos benefícios de uma intervenção especialmente concebida para cada indivíduo. Assim, por exemplo, se no seu cérebro não há suficiente dopamina, poderá querer optar por comer comida rica em tirosina (precursor químico da dopamina). Acho que no futuro vamos comer muito dos chamados alimentos funcionais (um alimento a que é dado uma função adicional, normalmente relacionada com a promoção da saúde e prevenção da doença, acrescentando novos ingredientes ou mais quantidade aos que já existem). Atualmente, já se pode comprar água mineral enriquecida com vitaminas ou arroz com GABA.

Pode dar exemplos que mostrem uma aplicação com sucesso de potenciação cognitiva?
Sim. Há algumas provas sobre a melhoria de doentes com demência através de uma terapia ativa com música. Por outro lado, a estimulação cerebral [com impulsos elétricos] por ajudar os atletas a melhor identificar a direção de uma bola atirada na sua direção. Mais: algumas profissões como a de controlador do tráfego aéreo, que exige a interpretação de uma grande quantidade de informação diferente num visor de radar, podem promover a cognição.

Fala da influência dos jogos de vídeo na potenciação cognitiva, especificamente na melhoria das nossas capacidades para desempenhar múltiplas tarefas. Qual será o impacto das redes sociais, como o Facebook, Twitter e Instagram, entre outros?
É uma boa questão. São fenómenos relativamente recentes e, por isso, não há ainda muita investigação sobre isso. Os dados preliminares mostram que estarmos ocupados com várias redes sociais pode ajudar-nos a desempenhar múltiplas tarefas, mas também nos torna mais distraídos. A distracção é um possível custo mental do impacto das redes sociais na nossa cognição.

Como explica esta crescente preocupação com o desempenho cognitivo?
Este assunto tornou-se muito relevante nos últimos anos por duas razões principais. Primeiro, economicamente, o interesse na potenciação cognitiva é sobretudo gerado pelo aumento de custos dos sistemas de segurança social especialmente relacionados com o facto de as pessoas viverem mais tempo nas sociedades ocidentais. Por exemplo, a potenciação cognitiva pode ajudar a atrasar o declínio cognitivo nos idosos, aumentando o tempo em que estas pessoas podem viver de forma autónoma e, assim, reduzir custos. Na mesma linha, o treino de crianças pode acelerar a educação de indivíduos saudáveis e reduzir o risco de desvios comportamentais e patologias, mais uma vez com consideráveis poupanças nos sistemas de saúde e segurança social.

Em segundo lugar, as sociedades orientais e ocidentais estão a ser cada vez mais orientadas para o individualismo, que valoriza a existência e muitas vezes também a importância das diferenças individuais acima das semelhanças e valores coletivos.

Qual é o limite, as fronteiras técnicas e éticas, para a potenciação cognitiva?
A questão ética vai ser muito importante no futuro. A primeira questão tem a ver com a “honestidade” da intervenção. Por exemplo, tem sido referido que os métodos de potenciação cognitiva podem desrespeitar a natureza e dignidade humana, contribuindo para menos autenticidade e uma batota de comportamento, e que pode incentivar uma busca descontrolada pela excelência e perfeição. Estas posições não são tão exageradas como parecem, como demonstra o crescente uso de fármacos, como o modafinil e a Ritalina, por estudantes que querem melhorar o seu desempenho académico. Dentro de pouco tempo, as universidades poderão optar por proibir o recurso a estas drogas ou a admitir que sejam usadas só em determinadas situações, como exames. A mesma coisa aplica-se aos aparelhos de estimulação cerebral comerciais, que estão disponíveis na Internet sem nenhuma restrição.

Mas há mais implicações…
Uma segunda questão encontra-se na tensão entre dois princípios éticos que sustentam a nossa sociedade: a liberdade individual e a igualdade. Enquanto programas de potenciação cognitiva eficazes podem ser usados para responder à expressão da liberdade individual, isso pode chocar com a igualdade. As sociedades apoiam-se cada vez mais na competição, que valoriza o desempenho e capacidades individuais. A melhoria cognitiva pode ter um efeito no estatuto social e económico de alguns. Embora isto possa ser considerado o resultado justo de uma escolha individual, podem existir consequências nas expectativas e padrões da população em geral.

Quando um grupo de indivíduos mostrar que é possível melhorar as suas capacidades cognitivas, a pressão pública sobre os outros pode aumentar para que o façam também. A existência de programas de melhoria cognitiva eficazes pode, assim, gerar ou aumentar a pressão de ser sempre o melhor de todos, de trabalhar mais, durante mais tempo, de forma mais intensa, o que, no final das contas, pode acabar por agravar os problemas que inicialmente se pretendia solucionar. Especificamente, a simples opção de uma pessoa melhorar as capacidades cognitivas pode aumentar a competição social. Pior do que isso, como a probabilidade do lucro destas intervenções de melhoria cognitiva é diferente entre indivíduos, a disponibilidade destes programas pode criar, ou aumentar, as clivagens sociais.

Por outro lado, estas intervenções podem ser usadas para diminuir, em vez de aumentar, as disparidades sociais permitindo que todos, e não só os indivíduos economicamente privilegiados, atinjam o seu potencial cognitivo. Isto não erradicaria a competição mas geraria condições em termos semelhantes.

Falou da Ritalina usada por estudantes que querem melhorar o seu desempenho académico. Mas atualmente vemos também muitas crianças muito novas, nos primeiros anos de escola, com prescrições para este tipo de fármacos. Qual é a sua opinião sobre este assunto polémico?
Se a criança tem um diagnóstico “real” de transtorno de défice de atenção com hiperatividade (TDAH), tomar Ritalina pode ser útil, mas cada caso deve ser considerado de forma individual. Quando o meu sobrinho Linus (diagnosticado com TDAH e autismo) começou a tomar Ritalina com seis anos, eu fui contra. Mas depois falei com ele. Insistiu que queria tomar aquela droga porque fazia com que os seus pensamentos não fossem tão confusos, conseguia relacionar-se melhor com as outras pessoas e sentia-se mais como as outras crianças. Assim, chegámos a um compromisso. Linus está a tomar o fármaco quando vai para escola mas não ao fim-de-semana.

Acredita que será possível melhorar funções cognitivas através de técnicas de edição genética como a tesoura molecular CRISPR/Cas9, que permite um jogo de corta e cola no nosso ADN?
Acredito que a CRISPR/Cas9 será uma ótima tecnologia para curar doenças genéticas e matar células do cancro. O departamento de engenharia genética da Universidade de Leiden, onde estou a trabalhar, está a procurar uma cura para uma doença rara chamada distrofia muscular facio-escápulo-umeral [caracterizada por fraqueza muscular progressiva com envolvimento dos músculos da face, ombro e braço]. Um dos filhos de uma das minhas colegas sofre desta doença e esperamos encontrar uma cura nos próximos dez anos usando a tecnologia da CRISPR/Cas9. No entanto, quanto ao uso desta tecnologia para “fins de melhoria cosmética” temos de ter muito cuidado. Este tema está associado ao que se chama “o lado negro da ciência”. Precisamos de estar em alerta e espero que nunca se chegue tão longe.

Em que é que está a trabalhar neste momento?
Estou a investigar o efeito de microdoses de psicadélicos na criatividade. Neste momento assistimos a um regresso da tendência do uso de substâncias psicadélicas. Incluindo em Portugal, onde este revivalismo também parece estar a acontecer (Boom Festival). Em particular, gestores a trabalhar em Silicon Valley estão a tomar microdoses (doses que são mais ou menos um décimo das quantidades normalmente usadas para uso recreativo, e que se pensa representarem um perfil de baixo risco quando confrontado com o seu potencial benefício) para ficarem mais criativos. Estamos atualmente a investigar se isso é mesmo assim.

Defende que há substâncias e ações que podem potenciar as nossas funções cognitivas. Na sua vida, recorre a estas substâncias, come os alimentos que diz serem capazes de melhorar as funções cognitivas, pratica exercício e/ou meditação?
Acredito que um cientista deve ser “neutro” e não deve necessariamente usar todas as substâncias/intervenções que investiga, pois pode ser influenciado para “querer encontrar um efeito positivo”. De qualquer forma, como de forma saudável, faço muito exercício físico e ioga, mas não faço estimulação cerebral nem meditação, não uso jogos de vídeo nem drogas (cafeína, substâncias psicadélicas). Toda a gente é diferente e deve escolher a intervenção que lhe parece mais adequada. O meu objetivo como cientista é mostrar os efeitos de possíveis intervenções, mas compete a cada indivíduo a escolha da mais apropriada para as suas necessidades.

Fonte: Público

terça-feira, 3 de abril de 2018

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Pais sem meios para pagar terapias dos filhos autistas

Associações garantem que há famílias a vender a casa para assegurar aos filhos tratamentos que Estado e seguros não cobrem.

Há pais a vender as casas para conseguirem pagar todas as terapias e medicamentos que os filhos autistas precisam. Outros a meter baixa, férias ou até a perder o emprego, porque não existem respostas suficientes para as pausas escolares. E há muitos jovens e adultos com aquele distúrbio, sem apoio familiar e sem vagas nos poucos lares existentes. Esse é o panorama, ao assinalar-se, esta segunda-feira, o Dia Mundial da Consciencialização do Autismo, num país onde nem se sabe quantos cidadãos são portadores dessa patologia.

Notícia desenvolvida na Edição Impressa do JN

Perturbações específicas da linguagem

As dificuldades da linguagem são frequentes, não são imaturidades que desaparecem com o tempo e podem ter um grande impacto, não só no desempenho escolar, mas também na relação com os outros e no desenvolvimento emocional.

Quando uma criança entra no 1.º ano do ensino básico, já tem normalmente um conhecimento implícito das regras dos diferentes sistemas da linguagem (fonologia, semântica, morfologia, sintaxe e pragmática). Se a aquisição destas competências é feita de forma homogénea, embora mais lenta do que o esperado para a idade, falaremos de um atraso simples no desenvolvimento da linguagem. Mas se essa dificuldade for apenas em um, dois ou três dos diferentes sistemas e não em todos? E se elas apenas se tornam visíveis com o aumento na exigência e na complexidade das matérias?

“O humor negro é sobre pessoas negras” (sic)! Quão difícil pode ser extrair o significado além do que é dito nas palavras, na sua leitura literal. “Um meio de transporte é um transporte partido” (ao meio). “Dúzia e meia é o mesmo que meia dúzia.” Os colegas até poderão rir, os adultos pensar que estará certamente a gozar. Mas ninguém reparou que há um problema de descodificação da mensagem, uma dificuldade na sintaxe e uma interpretação demasiado concreta?

As dificuldades no acesso ao léxico podem tornar o discurso confuso. “É aquilo para pôr os pés e para saltar nas lamas” para descrever botas de borracha. “Como é que se chama aquilo que se parece com uma pistola e que é para fazer buracos na parede, ai, como é que é?…” para nomear o berbequim.

A perturbação específica da linguagem (PEL) é algo que afeta a compreensão e/ou a expressão do que é dito e tem uma prevalência de cerca de 7%. E, ao contrário do que o nome indica, não é tão específica assim, já que coexiste frequentemente com atrasos em outras áreas do desenvolvimento, como o défice de atenção, de coordenação motora ou com um maior risco de problemas de comportamento e de ajuste psicossocial.

“Estive de férias nas duas últimas semanas do ano” foi a resposta à pergunta “Então como é que correram as férias?” Respostas a perguntas abertas – “porquê”, “para quê”, “como”, “onde”, “quando”, “o quê” —, podem sair completamente ao lado. Na escola, a avaliação formal será uma tarefa penosa, cansativa e difícil de terminar. Isto porque, para cada questão posta, não será automático perceber a ideia do que foi perguntado ou encontrar palavras adequadas para responder.

Dificuldades assim podem só por si trazer implicações noutras áreas do desenvolvimento. Quando falha o problema da interpretação de estruturas frásicas complexas e da sua transformação em estruturas mais simples para acesso ao significado do que é ouvido ou lido, há lentidão, mal-estar, isolamento e depressão. O relacionamento com outros, a naturalidade e espontaneidade da comunicação são afectados e pode levar outros a pensar que se encontra num mundo muito próprio, com algumas semelhanças com uma perturbação do espectro do autismo. O difícil acesso ao léxico poderá sugerir também falta de estimulação ou défice cognitivo. Muitas foram, em avaliações anteriores, diagnosticadas como autismo ou deficiência intelectual.

Para a criança, estas dificuldades trazem inicialmente frustração, por não perceber o que lhe é dito e, depois, desmotivação e passividade, por desistir de tentar perceber. E rapidamente surgem os chavões, “não se implica no estudo”, “pode ter uma dificuldade cognitiva” ou “nunca está com atenção”.

A pergunta será outra. Como foi possível chegar até aqui, na escola ou no relacionamento com os pares, sem se ter percebido que não é por preguiça, nem por burrice, desinteresse ou extrema distracção que o insucesso aparece? É porque bem ou mal conseguia ir acompanhando o grupo e a turma, fazendo como os outros, aproveitando competências suas de leitura das situações para além do verbal. Mas a certa altura isto já não chega. E muitas vezes surgem também problemas comportamentais. Um estudo de 2007, por Bryan e colaboradores, identificou dificuldades a nível do discurso, da linguagem ou da comunicação em mais de 60% dos jovens que se encontravam sob custódia judicial.

É muito mais o que não sabemos do que o que sabemos sobre as perturbações “congénitas” da linguagem, até porque não são nada homogéneas, ocorrem com uma imensa variedade de manifestações de criança para criança, e se modificam, em cada caso, ao longo do seu crescimento. É obrigatório avaliar precoce e periodicamente a cognição verbal e não verbal, caracterizar as dificuldades encontradas, ensinar cuidadores e professores, prevenir as complicações de ordem emocional e optimizar por todas as formas a comunicação. Nada fácil, sabendo como as coisas podem mudar no próprio com o tempo, que não há dois casos iguais, que à audição não basta ser “socialmente útil”, mas que deve ser apenas perfeita, e que a perturbação em comorbilidade da atenção é a regra, nem que seja pela solicitação intensa a que pode obrigar a navegar numa língua que, apesar de ser a sua, é em parte, para todos os efeitos, uma língua estranha.

Pedro Cabral

Terapeuta da Fala no Cadin
Médico, director clínico do CADIn

Fonte: Público

Alunos carenciados vão ter prioridade na escolha da escola

O despacho, que define a quem se deve dar preferência no momento da inscrição, vai passar a ter em conta a situação financeira do agregado familiar

As famílias carenciadas vão ter prioridade na escolha da escola da sua zona de residência em relação aos restantes alunos, anunciou esta quarta-feira a secretária de Estado da Educação, Alexandra Leitão.

O novo despacho sobre matrículas está em processo de audiência prévia, que irá terminar na próxima semana, e a secretária de Estado Adjunta e da Educação, Alexandra Leitão, anunciou hoje no parlamento uma novidade do diploma: "Será dada prioridade aos alunos com Apoio Social Escolar".

O despacho, que define a quem se deve dar preferência no momento de inscrição na escola, vai passar a ter em conta a situação financeira das famílias.

Depois, entre os alunos que vão para o ensino básico é dada prioridade aos que frequentavam instituições particulares de solidariedade social da zona e, entre os do secundário, é dada prioridade aos que, no ano anterior, já frequentavam um estabelecimento de ensino do agrupamento.

Por último, aparece a morada do trabalho dos encarregados de educação.

Segundo a secretária de Estado, a situação socioeconómica das famílias vai passar a integrar a lista das prioridades na matrícula.

"Dentro da área geográfica de residência e de trabalho será dada prioridade aos alunos que têm Apoio Social Escolar (ASE)", explicou Alexandra Leitão, durante a audição na comissão de Educação e Ciência que decorreu hoje no parlamento.

Assim, entre dois alunos que morem no mesmo bairro, passa a ser dada prioridade aos alunos com ASE, assim como entre estudantes cujos pais trabalhem próximo da escola.

O despacho que atualmente está em vigor estabelece ainda que esta lista de prioridades pode sempre ser alterada, podendo ser definidas "outras prioridades e ou critérios de desempate" no regulamento interno do estabelecimento de educação e de ensino.

Alexandra Leitão recordou o resultado de vários estudos que alertam para o facto de "as escolas repercutirem a realidade do universo de alunos com Apoio Social Escolar".

Também o secretário de Estado João Costa sublinhou a preocupação da atual equipa ministerial em combater os efeitos negativos da pobreza, voltando a lembrar que a pobreza é o fator com mais impacto no sucesso académicos dos alunos.

Fonte: DN por indicação de Livresco